O psicólogo e psicanalista Emilio Figueira compartilha sua trajetória pessoal para destacar um ponto essencial: a família é o primeiro e mais duradouro espaço de inclusão. Mais do que terapias e recursos clínicos, são o afeto, o estímulo e a presença ativa da família que fortalecem a autoestima, a autonomia e o desenvolvimento da criança com deficiência.
Ao nascer com paralisia cerebral em uma época em que os recursos terapêuticos ainda engatinhavam, enfrentei desde cedo inúmeros desafios físicos e sociais. No entanto, um fator foi decisivo para que eu pudesse viver todas as possibilidades da vida: a presença constante e ativa da minha família no meu processo de reabilitação. Mais do que tratamentos e aparelhos, foi o apoio familiar que me deu forças para avançar.
Minha mãe, por exemplo, nos anos 1970, passava horas em transportes públicos para me levar diariamente às terapias, enfrentando o cansaço e as dificuldades logísticas de um sistema ainda pouco preparado para acolher pessoas com deficiência. Meu pai, em um momento marcante da infância, disse-me que a ciência já tinha feito tudo o que podia por mim, e que dali em diante caberia a mim acreditar nos meus sonhos. Esse incentivo foi uma das sementes de minha autonomia e da certeza de que eu poderia ir além das limitações. Meus avós e demais familiares também foram parte fundamental, oferecendo amor, estímulos e adaptações que me permitiram participar da vida cotidiana com dignidade.
A experiência pessoal revela uma verdade universal: a família é o primeiro e mais duradouro espaço de inclusão. É no seio familiar que a criança com deficiência encontra as primeiras oportunidades de estimulação, aprende a lidar com suas diferenças e, sobretudo, constrói sua autoestima. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento e educação inclusiva apontam que crianças apoiadas em ambientes familiares afetivos e estimuladores apresentam melhores resultados cognitivos, motores e sociais. O contrário também é verdadeiro: a ausência de acolhimento pode reforçar sentimentos de exclusão e dependência.
A reabilitação, nesse sentido, vai além do espaço clínico. Ela começa em casa, no cotidiano, nos pequenos gestos de adaptação e incentivo. Uma colher engrossada para facilitar a alimentação, um jogo de memória oferecido como forma de estimulação cognitiva, um passeio que desafia os limites do corpo, tudo isso contribui para o fortalecimento da autonomia. A família, quando envolvida, transforma cada momento em oportunidade de aprendizagem e superação.
Outro aspecto fundamental é a dimensão emocional. Para a criança com deficiência, sentir-se amada e valorizada é essencial para enfrentar as barreiras sociais e internas. O suporte afetivo da família funciona como um alicerce que dá segurança para explorar o mundo e acreditar em si mesma. Muitas vezes, essa confiança construída em casa é o que possibilita que a criança avance em ambientes externos, como a escola e a comunidade.
É importante destacar também que a presença da família não significa superproteção. Um dos maiores desafios é encontrar o equilíbrio entre o cuidado necessário e a promoção da independência. Estimular a criança a realizar o que pode por si mesma, ainda que de forma mais lenta ou adaptada, é uma forma de respeitar sua dignidade e preparar para a vida adulta. A família, nesse ponto, precisa ser parceira da escola, dos profissionais de saúde e da sociedade, assumindo um papel ativo na luta contra o capacitismo e as barreiras que ainda persistem.
Hoje, olhando para a minha trajetória, reconheço que cada conquista que tive – da alfabetização à vida profissional, da autonomia ao exercício pleno da cidadania -, foi construída sobre a base sólida de uma família que acreditou em mim. Se não tivesse esse suporte, talvez o caminho tivesse sido muito mais difícil ou até impossível. Por isso, quando falamos de políticas públicas de inclusão e reabilitação, não podemos esquecer que fortalecer as famílias é fortalecer diretamente as crianças com deficiência.
Em última instância, o que aprendemos é que reabilitar não é apenas recuperar funções físicas ou cognitivas, mas construir possibilidades de vida. E essa construção começa, invariavelmente, dentro de casa. O afeto, a presença e o estímulo familiar são insubstituíveis. A família é, portanto, o primeiro espaço de inclusão, o primeiro motor da reabilitação e a primeira escola da vida para qualquer criança com deficiência.
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