Minicérebros, espaço e autismo: o que Alysson Muotri revelou na palestra que vai mudar sua forma de entender o TEA

Alysson Muotri palestrando em congresso sobre autismo e minicérebros

O neurocientista brasileiro mais publicado do mundo abriu o laboratório em palavras — e o que ele contou vai de células-tronco a psicodélicos, da Amazônia à Lua.


✦ “O maior alguém da minha vida”

Foi assim que Alysson Muotri se referiu ao filho Ivan, autista nível 3, ao longo de toda a palestra. Não como um caso clínico. Não como uma motivação acadêmica. Como o maior alguém da sua vida.

Ivan hoje tem 19 anos. Tem epilepsia refratária — não responde aos três medicamentos que toma. Tem convulsões do tipo tônica atônica, aquelas em que o corpo perde toda a musculatura de repente e a pessoa cai. Por isso, Muotri conta que a família vive segurando no braço, na camiseta, sempre perto. “Já machucou a cabeça, já pegou o crânio, já perdeu dente, já caiu no chão.”

É esse peso que carrega quando entra no laboratório todos os dias.


Autismo profundo: uma nova nomenclatura que chega ao Brasil

Logo no início da palestra, Muotri apresentou uma mudança de linguagem importante que já está sendo adotada nos Estados Unidos — e que começa a chegar ao Brasil: o autismo nível 3, aquele acompanhado de déficit intelectual, epilepsia e outras comorbidades severas, está passando a ser chamado de “autismo profundo”.

Não é só uma questão de nomenclatura. É uma separação clínica e científica relevante: o autismo profundo, na maioria dos casos, é causado por alterações genéticas em genes do neurodesenvolvimento — genes que controlam como o cérebro se forma, e que quando alterados resultam no conjunto de comportamentos que chamamos de autismo.

“O autismo é uma consequência dessas alterações genéticas. Você nasce autista, você não fica autista depois que você nasce”, afirmou ele com clareza.


As causas do autismo: o que a ciência já sabe

Muotri dedicou parte da palestra a desfazer mitos e situar o estado atual da ciência sobre as causas do TEA:

  • A maior causa do autismo é genética — isso já é sabido desde a década de 1990.
  • Essa genética pode ser hereditária ou “de novo” — ou seja, uma mutação que surge naquele indivíduo, sem histórico familiar.
  • As causas ambientais existem, mas atuam em pessoas com genética suscetível, e em geral são alterações químicas que acontecem dentro do útero durante o desenvolvimento. Alguns anticonvulsivantes tomados durante a gestação, por exemplo, têm relação comprovada com maior risco de autismo.
  • Outros fatores ambientais — como compostos presentes em panelas antiaderentes (PFAS) ou o paracetamol — ainda estão sendo estudados para entender se são causais ou apenas correlacionais.

“A maior parte, uns 80 por cento, tem uma genética. Você nasce autista.”


O problema: o cérebro humano é inacessível

Se a genética causa o autismo, o que a ciência ainda não sabe é como ela causa. E é justamente aí que Muotri trabalha — na interseção entre genética e neurociência.

O grande obstáculo é que o autismo começa dentro do útero, e o cérebro humano em desenvolvimento é completamente inacessível. Não existem ferramentas de alta definição para observar como os primeiros neurônios se formam, como as primeiras conexões surgem.

Durante décadas, a ciência usou animais para estudar o cérebro. Mas Muotri foi direto: “O cérebro do rato, do macaco, não tem muito a ver com o cérebro humano. Foram evoluídos de uma forma muito diferente.” Modelos animais simplesmente não capturam as particularidades do neurodesenvolvimento humano.

Foi essa limitação que o levou a propor uma solução radicalmente diferente.


A solução: reconstruir o cérebro humano em laboratório

A ideia é tão simples de enunciar quanto complexa de executar: se não conseguimos acessar o cérebro humano em desenvolvimento, vamos reproduzi-lo em laboratório.

O processo começa com uma doação de células — pode ser da pele, do sangue ou até de um fio de cabelo. Essas células são reprogramadas de volta ao estado de células-tronco pluripotentes e, a partir daí, induzidas a se especializar em tecido neural. Com a adição de dois fatores químicos específicos — um que bloqueia a formação de qualquer outro tecido do corpo, e outro que estimula especificamente o tecido cerebral — as células começam a formar neurônios.

Esses neurônios se organizam em esferas tridimensionais de aproximadamente meio centímetro, contendo 2,5 milhões de neurônios. São os organoides cerebrais — os chamados minicérebros.

“No começo eu achei que ia ter que montar esse tecido de forma estruturada, colocar cada célula no lugar certo. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que todo esse processo é geneticamente orquestrado. Está tudo codificado no seu genoma.”
— Alysson Muotri

O tecido se forma sozinho, seguindo a mesma lógica do desenvolvimento intrauterino: células migram do centro da esfera para a periferia, seguindo trilhos de células especializadas chamadas células da glia radial — exclusivamente humanas. As camadas corticais vão se formando de dentro pra fora, exatamente como acontece no feto.


Esses minicérebros pensam? Sentem? Têm consciência?

É a pergunta que mais aparece — e Muotri a enfrenta com seriedade. Quando a equipe publicou que os organoides exibiam atividade elétrica organizada, comparável ao EEG de bebês prematuros, o mundo virou para eles.

A equipe criou uma máquina de inteligência artificial que analisa o padrão de ondas cerebrais e aponta a idade do indivíduo. Com 100% de acerto nos bebês testados. Quando aplicada aos organoides, a correlação foi perfeita: “A máquina não consegue mais distinguir o que foi feito de forma artificial do que foi feito de forma natural.”

Isso gerou um desconforto ético real. “Conforme a gente aumenta a complexidade desse tecido, ele deixa de ser só um instrumento de ciência e passa a ser algo um pouco mais significativo. E se isso acontecer, muito possivelmente a gente vai ter que dar um status moral a esse organoide cerebral.”

Muotri reconhece que a filosofia ainda não tem resposta para isso — e que será a ciência, avançando, que vai forçar esse debate na sociedade.


O que os minicérebros revelaram sobre o autismo

Ao criar organoides a partir de células de autistas e de pessoas neurotípicas, a equipe começou a observar diferenças concretas:

  • Neurônios de autistas com síndrome de Rett mostraram uma redução de aproximadamente 50% no número de sinapses em comparação com neurotípicos — ao mesmo tempo de gestação.
  • Organoides de autistas nível 3 apresentam excesso de neurônios e excesso de atividade excitatória — o circuito está sobrecarregado, o que pode explicar por que esses indivíduos respondem menos a formas tradicionais de aprendizado e memória.
  • Organoides de autistas nível 1 têm número de neurônios muito mais próximo ao de neurotípicos, o que se traduz em circuitos mais organizados e maior capacidade de aprendizagem.

Isso foi comprovado de forma fascinante com um robô controlado por minicérebros: organoides de autistas nível 1 aprenderam a desviar de obstáculos muito mais rápido do que os de nível 3 — recapitulando em laboratório o que toda família já sabe na prática.


Reversão: o que parecia impossível está acontecendo

Durante décadas, a neurociência acreditava que tudo que acontecia durante a gestação e os primeiros anos de vida era irreversível. Ninguém queria financiar pesquisa em autismo porque parecia não ter o que fazer. A indústria farmacêutica ficava longe.

Muotri decidiu questionar isso. Ao adicionar um fator de crescimento chamado IGF-1 — produzido naturalmente no cérebro durante o exercício físico — aos organoides de autistas, a equipe conseguiu aumentar o número de sinapses a níveis próximos aos de neurotípicos. Em laboratório, a alteração era reversível.

Os ensaios clínicos, porém, falharam: o IGF-1 não atravessava a barreira hematoencefálica. “Ficamos devastados.”

Mas uma empresa australiana desenvolveu uma molécula menor, com apenas três aminoácidos, que conseguia chegar ao cérebro. Funcionou. Esse medicamento — chamado Trofinetide, comercializado como Daybue — foi aprovado pelo FDA e é hoje o primeiro medicamento aprovado para uma forma do espectro do autismo (síndrome de Rett). Está sendo negociado para entrar no SUS.

O preço? 15 mil dólares por dose. “Esse é o preço que se paga por não investir em ciência e inovação.”


Terapia gênica: corrigindo a raiz do problema

Para além dos medicamentos, Muotri está desenvolvendo terapias gênicas para subtipos específicos de autismo. A lógica é direta: a maioria das mutações genéticas que causam autismo afeta apenas uma das duas cópias do gene. Se a outra cópia está intacta, basta fornecer uma cópia extra do gene correto.

Essa cópia extra é entregue dentro de um vírus geneticamente modificado — o AAV (vírus adeno-associado) — que é injetado no paciente e chega até o cérebro.

Nos organoides da síndrome de Phelan-McDermid, causada por mutações no gene SHANK3, a desorganização das camadas corticais foi quase completamente revertida após a terapia gênica — tanto funcional quanto estruturalmente. O FDA aprovou o estudo clínico, e as primeiras injeções em pacientes já estão acontecendo nos Estados Unidos, Espanha e Israel.

“O que eu aprendi é que o cérebro é muito mais plástico do que a gente imagina.”


Psicodélicos: a fronteira mais inesperada

Em 2013, uma pesquisadora disse a Muotri: “Você já pensou em estudar psicodélicos no autismo?” Ele levou a ideia a sério.

Moléculas como a psilocibina (dos cogumelos) e o DMT (presente na ayahuasca) têm capacidade documentada de reestruturar redes neurais — aumentar a plasticidade cerebral. A hipótese: e se isso pudesse ajudar o autista nível 3 a formar novas conexões e melhorar aprendizado e memória?

Os resultados nos organoides foram promissores: na presença de DMT, as redes neurais de autistas nível 3 conseguiram aprender e memorizar de forma muito mais eficiente.

Mas — e Muotri foi explícito — não se trata de dar psicodélicos a autistas. O objetivo é engenheirar novas moléculas que mantenham o efeito terapêutico (a plasticidade neural) e eliminem o efeito psicodélico. Essa nova classe de compostos, chamados de não-alucinogênicos, já está sendo testada. “Tenho grandes esperanças nesse caminho para os autistas brasileiros.”


O espaço como máquina do tempo

Um dos problemas do modelo de organoides é o tempo: para estudar o autismo em adultos ou a epilepsia que surgiu aos 7–8 anos (como no caso de Ivan), seria necessário amadurecer esses tecidos por anos no laboratório.

A solução veio da NASA. Estudos mostraram que astronautas envelhecem mais rápido no espaço — e que os organoides cerebrais enviados à Estação Espacial Internacional (ISS) apresentam o mesmo fenômeno: 30 dias no espaço equivalem a 10 anos de envelhecimento cerebral na Terra.

Isso transformou o espaço em uma máquina do tempo para a neurociência. Muotri pode agora estudar o que acontece com o cérebro autista ao longo de décadas — em semanas. Já foram realizadas mais de 18 missões com organoides na ISS, todas dentro de uma caixa do tamanho de uma caixa de sapato com processadores, câmeras e controle remoto da Terra.

Foi nessas missões que a equipe fez uma descoberta inesperada: os organoides da síndrome de Rett no espaço ativavam genes relacionados a uma resposta a infecção viral. De onde vinham esses vírus?

De nós mesmos. 90% do genoma humano é composto de fragmentos de retrovírus acumulados ao longo da evolução. Normalmente ficam silenciados pela epigenética — mas com o envelhecimento (acelerado no espaço), esses retrovírus começam a se ativar, causando inflamação cerebral de dentro pra fora.

A hipótese: tratar essa inflamação com antirretrovirais — os mesmos medicamentos usados contra o HIV — poderia desacelerar a degeneração neurológica. Em modelos animais, funcionou: os animais não apenas sobreviveram mais, como recuperaram mobilidade e função cognitiva. O FDA aprovou o primeiro ensaio clínico com antirretroviral para síndrome de Rett. “Tenho muito orgulho de conseguir trazer essas descobertas de forma acessível.”


Da Amazônia à Lua

Muotri também revelou dois projetos que expandem ainda mais o escopo da pesquisa:

Amazônia: Em parceria com a Universidade Federal do Amazonas e comunidades indígenas, a equipe usa robôs enviados por drone para mapear e coletar plantas medicinais na floresta. O conhecimento ancestral dos pajés sobre plantas usadas em casos de confusão mental e esquecimento está sendo digitalizado e testado nos organoides. Os royalties de qualquer tratamento descoberto voltam integralmente para as tribos e para a conservação da floresta.

Lua: A NASA convidou Muotri para integrar uma missão tripulada à ISS — e há conversas em curso sobre um laboratório lunar, onde organoides poderiam ser produzidos e testados em condições de microgravidade permanente, com os resultados trazidos à Terra para ensaios clínicos.


Razões para acreditar

Muotri encerrou a palestra com uma lista de motivos concretos para otimismo:

  • A genética do autismo está sendo cada vez melhor mapeada — casos antes inexplicáveis estão sendo elucidados.
  • A reversão de alterações biológicas está sendo demonstrada tanto em organoides quanto em modelos animais.
  • O surgimento de modelos humanos atrai a indústria farmacêutica, que antes evitava o autismo por falta de perspectiva terapêutica.
  • Existem casos documentados de remissão espontânea em autistas severos — e entender esse mecanismo pode ser a chave para aplicá-lo intencionalmente.

E terminou com duas frases que, segundo ele, o acompanham:

“As coisas mais difíceis da vida merecem que a gente as faça.”
— Rainer Maria Rilke (citado por Muotri)

“Nós vamos à Lua não porque é fácil, mas porque é difícil.”
— John F. Kennedy (citado por Muotri)

A ciência não para. E há crianças, adolescentes e adultos que dependem dela.


Fonte principal: Transcrição da palestra de Alysson Muotri
Fontes complementares: CNN Brasil · Canal Autismo · Tismoo · Futuro da Saúde · Wikipedia
Saiba mais: Muotri Lab (UCSD) · Tismoo.com.br

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