A palestra de Leila Bagaiolo e Cláudia Romano no congresso foi um dos momentos mais aguardados do evento — e não decepcionou. Com rigor científico e comprometimento ético, as duas especialistas apresentaram um panorama atualizado sobre o estado da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) no Brasil, seus desafios e os caminhos que a área vem construindo para garantir qualidade e responsabilidade nas intervenções.
Sobre as palestrantes
Leila Bagaiolo é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia Experimental, com foco em desenvolvimento atípico. Cofundadora e co-diretora do Grupo Gradual desde 2010, atuou no laboratório de autismo do Hospital das Clínicas (PROTEA) e é reconhecida como uma das pioneiras da ABA no Brasil.
Cláudia Romano integra a mesma trajetória de pesquisa e prática clínica, com ênfase no suporte à família e na capacitação parental baseada em evidências.
A Nota Técnica Orientativa do CFP
Um dos pontos centrais da palestra foi a apresentação da Nota Técnica Orientativa do Conselho Federal de Psicologia (CFP), elaborada com a participação das próprias palestrantes. O documento tem como objetivo orientar a prática ética da ABA, alinhando-a aos princípios dos direitos humanos e à legislação vigente sobre os direitos das pessoas autistas.
A nota surge em um contexto de expansão acelerada do diagnóstico de TEA e de uma proliferação de serviços nem sempre preparados para oferecer intervenções qualificadas. Para as palestrantes, o crescimento científico rápido exige um retorno às raízes e fundamentos da disciplina.
O cenário atual: dados e desafios
A palestra trouxe dados concretos sobre o momento vivido pela área:
- Mais de 386 projetos de lei tramitam na Câmara dos Deputados sobre autismo, muitos envolvendo ABA e educação.
- O CFP e os 24 Conselhos Regionais de Psicologia votaram pela necessidade de esclarecimento oficial sobre ABA e TEA.
- A curva de crescimento de cursos de pós-graduação em ABA registrados no MEC subiu drasticamente a partir de 2018 — com predominância de modalidades à distância e concentração geográfica no Sudeste.
- A maioria dos cursos não atende aos critérios mínimos de conteúdo para uma certificação séria, como a CABA-BR.
A ABPMC e a Certificação CABA-BR
A ABPMC (Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental) — a associação mais antiga da área, com mais de 30 anos de história — lançou em 2023 a primeira certificação nacional em ABA: a CABA-BR. A iniciativa envolve subcomissões voluntárias que trabalham para criar parâmetros não apenas para profissionais, mas também para clínicas e cursos.
Em breve, a ABPMC disponibilizará em seu site um selo de qualidade para cursos, avaliando carga horária, prática supervisionada e qualificação docente.
O que define uma ABA eficaz?
As palestrantes reafirmaram que ABA é uma ciência, não um método. Para ser considerada eficaz, a intervenção deve ser:
- Conceitual — fundamentada na literatura científica
- Tecnológica — com procedimentos replicáveis
- Analítica — capaz de comprovar que a variável modificou o comportamento
- Comportamental — com medidas mensuráveis
- Generalizável — produzindo mudanças em diferentes ambientes
- Compassiva — colocando o autista e sua família no centro das decisões
Também foi desmistificada a ideia de que “intervenção intensiva” equivale necessariamente a muitas horas de atendimento clínico. A ABA deve ocorrer em ambientes naturais — escola, casa e comunidade — e não apenas em setting clínico.
Capacitação Parental e Tecnologia
Cláudia Romano aprofundou o papel central da família no processo terapêutico. A capacitação parental é uma prática baseada em evidências, com impacto comprovado na comunicação, nas habilidades sociais e na redução de comportamentos disruptivos.
A palestra destacou ainda o uso de aplicativos móveis — como o Nosso Diário TEA — como ferramentas de baixo custo para disseminar práticas eficazes em regiões com poucos profissionais especializados. O uso da ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) com famílias também foi apresentado como estratégia para trabalhar a flexibilidade psicológica dos cuidadores frente ao estresse cotidiano.
Combate à Desinformação
A comissão de comunicação da ABPMC, liderada por uma pessoa autista, vem desenvolvendo conteúdo científico acessível para combater a desinformação nas redes sociais. Uma pesquisa realizada com familiares e profissionais identificou Instagram, TikTok e YouTube como as principais fontes de informação — o que reforça a urgência de uma presença qualificada nesses espaços. A página “Autismo com Ciência para Todos” é uma das iniciativas nesse sentido.
Encerramento
A palestra foi encerrada com uma convocação direta às(aos) profissionais presentes: levar a ciência adiante, com responsabilidade e compromisso com quem mais importa — as pessoas autistas e suas famílias.
“Conhecimento é ciência. Esperamos que cada um de vocês tenha sido tocado por essa mensagem. Levem a ciência para mais pessoas.” — Leila Bagaiolo


