A psiquiatra Ana Beatriz foi uma das palestrantes do Congresso Jornada do Autismo 2026. Em sua participação, ela respondeu a perguntas sobre temas que tocam diretamente famílias, profissionais de saúde e pessoas com TDAH e TEA: o subdiagnóstico em mulheres, a relação entre os dois transtornos, as comorbidades mais comuns e os riscos do excesso de diagnósticos. A seguir, reunimos os principais pontos abordados.
TDAH em mulheres: por que o diagnóstico demora tanto?
Uma das perguntas do evento abordou os sinais mais sutis do TDAH em meninas e mulheres — e por que eles passam tanto tempo despercebidos. Ana Beatriz foi direta: existe uma dívida histórica com as mulheres nesse campo.
Segundo ela, os sintomas femininos do TDAH são predominantemente internalizantes — distração, dificuldade de concentração e sensibilidade emocional elevada. Sem a hiperatividade visível que costuma chamar atenção nos meninos, meninas crescem sendo chamadas de “cabeça de vento” ou, pior, tendo seus sintomas confundidos com transtornos de personalidade.
A própria Ana Beatriz viveu isso. Diagnosticada entre os 19 e os 20 anos, ela relembra que desenvolveu estratégias de camuflagem — “para me fingir uma pessoa normal”, nas suas palavras.
Sinais que merecem atenção em meninas e mulheres
- Distração frequente sem hiperatividade aparente
- Sensibilidade emocional intensa — choro fácil, reações proporcionalmente maiores
- Perfeccionismo excessivo como forma de compensar dificuldades
- Fobia social e esquiva de situações de exposição
- Ansiedade crônica sem causa aparente identificada
“Sempre soube que tinha algo diferente, mas não sabia o que era”
Ao ser questionada sobre a sensação crônica de culpa e inadequação descrita por muitos adultos com TDAH, Ana Beatriz explicou que esse sentimento tem raízes concretas: saber que algo é diferente, sem ter nome para isso, gera insegurança e ansiedade constantes. A comparação com os pares e as reações do entorno agravam o quadro.
Para ela, o que fez diferença em sua própria trajetória foi ter uma mãe que enxergava potência onde os outros viam defeito. “A maneira como ela olhou para o que eu tinha de especial foi fundamental para que eu quisesse acertar”, contou durante o congresso.
TDAH e TEA: sobreposição, não exclusão
A relação entre TDAH e autismo foi outro tema central. Ana Beatriz contou que, desde o início da carreira, sentia uma afinidade especial com pacientes autistas — e que eles também respondiam bem à sua presença. Antes mesmo de a ciência formalizar essa proximidade, ela já percebia que havia algo em comum entre os dois perfis.
Hoje, a neurociência confirma: os dois transtornos frequentemente se sobrepõem em termos de funcionamento biológico, conectividade neuronal e genética. Não há exclusão entre eles.
“Aquela barreira de que existia algo separando o mundo do TEA e do TDAH se mostrou equivocada. Quando entendemos isso, percebemos que não existe um cérebro perfeito.”
— Ana Beatriz, Congresso Jornada do Autismo 2026
Comorbidades: a regra, não a exceção
Segundo a psiquiatra, ter TDAH sem nenhuma comorbidade é incomum. Os quadros mais frequentemente associados incluem ansiedade, fobia social, síndrome do pânico, depressão e TOC. Muitos pacientes chegam ao consultório com essas queixas como diagnóstico principal — sem saber que o TDAH está na base.
Um padrão que ela observa com frequência: mães que levam os filhos para avaliação de TEA ou TDAH e, ao ouvir a descrição do transtorno, começam a se reconhecer. “Sempre soube que tinha algo diferente comigo, mas não sabia o que era” — essa é uma frase que Ana Beatriz ouve repetidamente no consultório.
Excesso de diagnósticos: informação não substitui escuta clínica
Perguntada sobre o crescimento do número de diagnósticos de TDAH e a preocupação com a medicalização, Ana Beatriz reconheceu o problema — mas com nuances importantes.
Sim, há excesso de diagnósticos. Mas parte do que está sendo rotulado como transtorno é, na verdade, consequência de um estilo de vida que adoece: privação de sono, uso excessivo de telas e ausência de vínculos afetivos reais. A geração mais informada sobre saúde mental é também a que mais adoece nessa área.
“A gente começa a entender o TDAH depois de atender 500 pacientes. Ler um texto gerado por inteligência artificial não substitui isso.”
— Ana Beatriz
Para ela, um diagnóstico preciso exige escuta ativa, história de vida detalhada, envolvimento da família e identificação do quadro primário antes de qualquer tratamento. “A escuta vale mais do que qualquer exame”, afirmou.
A palavra mais importante: tempo
Ao encerrar sua participação no congresso, Ana Beatriz deixou um recado direto a pais e profissionais:
“A palavra mais importante no universo do TDAH e do TEA é tempo. Se tivermos dúvida, precisamos agir antes — muito antes. Estimular crianças nunca será ruim. Nunca.”
— Ana Beatriz, Congresso Jornada do Autismo 2026
A espera pelo “momento certo” pode custar anos de desenvolvimento. O diagnóstico precoce, aliado a intervenção adequada e suporte afetivo, faz diferença concreta na vida de crianças e adultos com TDAH e TEA.
Este artigo é um resumo da participação da psiquiatra Ana Beatriz no Congresso Jornada do Autismo 2026, produzido pelo Portal do TEA. As informações têm caráter educativo e não substituem avaliação médica ou psicológica individualizada.


