O artigo aborda o cotidiano de pessoas autistas em diferentes ambientes, como casa, restaurantes, cinema e espaços públicos, destacando a importância da previsibilidade e das adaptações. Com orientações práticas, o autor mostra como pequenas mudanças nas atitudes podem favorecer o bem-estar e a participação do autista. A mensagem central reforça que, respeitando as singularidades, todos podem viver com mais autonomia, inclusão e qualidade de vida.
O Abril Azul foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas, ONU, como uma forma de conscientizar as pessoas sobre o autismo, assim como dar visibilidade ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A sociedade está acordando para as questões do autismo. Ainda estamos longe de uma situação ideal quando o assunto é visibilidade e inclusão, mas uma boa caminhada já foi feita e os resultados já começam aparecer. Hoje já é possível ver as reservas de vagas nos estacionamentos, os atendimentos prioritários, as meias entradas e uma série de condições que já avolumam a dignidade da pessoa autista. Porém, muitas vezes, pais e pessoas comuns gostaria de entender e saber como melhorar suas posturas e atitudes diante de uma pessoa autista, seja ela criança, jovem ou adulto.
Vamos a algumas situações.
1. Em casa
Os autistas têm em casa o melhor e o maior centro terapêutico entre todos. É em casa que se constroem práticas de rotinas e de inteiração social que ele vai desdobrar fora de casa. Em casa os pais devem sempre trabalhar com a previsibilidade. Ou seja, nunca, jamais pensar em coisa em cima da hora. Autistas precisam de rotina e essa rotina possibilita que eles possam circular livremente pela casa, pelas coisas e pela vida. Se você vive com uma criança autista e quer mudar a rotina dela, lembre-se, previsibilidade é sempre é melhor solução. Avise-a antes. Converse com ela antes. Mostre a ela desenhos, figuras ou vídeos do que você pretende mudar e vá, aos poucos fazendo a mudança com ela. Nunca mude de uma hora pra outra uma dinâmica, pois isso pode ser muito difícil de aceitação. Autista tem, quase sempre, restrições cognitivas. O que dificulta um entendimento mais expandindo de imediato. Fazer uma rotina visual, com desenho e imagens de tudo que a criança deve ou pode fazer ao longo do dia também ajuda muito. Nesse caso, vá com a criança até o local onde está esta rotina pendurada, mostre a figura do vaso do banheiro e em seguida vá, com ela, até o vaso do banheiro. Mostre a figura da TV e vá com ela até o local onde se encontra a TV, mostre a figura das frutas e vá com a criança até o local onde estão sempre as frutas. Assim, a criança vai conquistando mais autonomia pois essa rotina visual vai ajudar essa criança a ir ao banheiro sozinha, comer uma fruta sozinha e assim por diante. Faça isso repetidas vezes até que ela possa internalizar essa atitude, sobretudo as com grau mais severo e com comorbidades. Mas nunca se esqueça que cada autista é uma realidade. Observe sempre qual é a realidade da sua criança e faça as adaptações.
2. No restaurante
Autistas podem ter muitos problemas nos restaurantes porque quase todos possuem dificuldades sensoriais. Ou seja, não é só o barulho que pode incomodar o autista. Excesso de cheiros, excesso de barulho e de movimentação de igual forma podem desorganizar um autista. E esses sensoriais são cumulativos, ou seja, se juntam e acabam por provocar uma desorganização que é a dificuldade de o autista permanecer naquele local. Nesse caso, se o restaurante é uma opção da família, vale a pena preparar o autista para o local. Vá com ele antes no local em horário de menos movimento. Faça o percurso com ela até o local e mostre, pouco a pouco tudo. Ao chegar no restaurante procure a mesa com melhor acomodação. Avise ou converse com a direção do local com antecedência para que a prioridade seja garantida. Esperar demais pela comida pode ser um problema. Procure restaurante onde tenha o cardápio que o autista normalmente já come. Novidades e inovações não costumam funcionar bem neste local. Se o local tem realmente muito movimento, barulho e cheiros em excesso, além de serviço ruim e demorado, é melhor fugir desse lugar pois há uma grande probabilidade de não dar certo.
3. No estádio de futebol
Um dos locais mais complicados para uma pessoa autista, mas não é impossível. Meu filho autista, nível 2 foi ao estádio pela primeira vez aos 11 anos mediante uma serie de adaptações. Lembre-se, no estádio de futebol não é, quase sempre, o melhor lugar pra você exigir atendimento prioritário, fila preferência e etc. lá é normalmente um lugar com tudo misturado. Muita gente. Muito barulho. Muita confusão e muita falta de informação , ainda, nesse sentido. Assim, o melhor, é estar preparado para a dinâmica do lugar: muitos gritos, muita música, muito barulho, muito palavrão, muita gente. Faça a previsibilidade, chegue bem cedo quando ainda não tem muita gente, procure entrar nos primeiros das filas, mantenha a calma, procure sentar em local fora das torcidas organizadas onde normalmente há mais empurra empurra e procure divertir o autista com tudo que tem ali. Não faça críticas ou valorize tudo que acontece, por exemplo, vai haver palavrões aos montes, mantenha sua naturalidade. E a dica mais importante, talvez no estádio de futebol o tempo de permanência não seja o total da partida. Dessa forma, assista uma parte da partida e saia numa boa. Aos poucos você irá perceber que poderá ver uma partida inteira.
4. No cinema
O escuro, o barulho e as cenas podem também desorganizar o autista. A previsibilidade também vai ajudar, e muito. Mas, mesmo assim, procure sentar perto da porta de saída para o caso de uma necessidade de saída rápida. Há filmes cujo tema não é de interesse do autista – e toda família já deve saber disso. Nunca tente empurrar um tema de filme que você gosta pro autista assistir – lembre-se que muitos tem rigidez cognitiva. Não vão entender e nem aceitar isso dentro do cinema. Pipoca , refrigerante e outras comidinhas talvez não funcionem no escuro. Lembre-se que se o autista tiver dificuldade motora acentuada, entre outras situações, pode ser muito difícil comer pipoca, achar o copo pra beber algo, prestar atenção ao filme e etc. faça o lanche antes do filme.
5. Na rua
Os autistas costumam gostar muito de passear, mas com adaptações. Segurar na mão de alguém, ter um braço pra apoiar e andar do lado de dentro da calça podem ser as dicas iniciais, mas cada autista tem seu jeito e isso tem que ser percebido. Andar muito, no calor do dia e no tumulto das pessoas pode não funcionar também. É preciso sair de casa dizendo ao autista onde vão, o que farão, quanto andarão e todas as demais informações que ajudarão a ele nessa previsibilidade. Sair sem rumo e enfrentando situações inusitadas pode ser sempre um problema.
Aqui são dicas gerais para autista de maneira geral. No entanto, vale sempre a pena lembrar que dentro do espectro nós temos autista que são altas habilidades e temos autistas com deficiência intelectual. Ou seja, a diferença entre eles pode ser enorme. De uma forma ou de outra, todos podem, com adaptações, conviver, viver e ser felizes.

