As disfunções sensoriais em crianças com TEA podem afetar comportamento, aprendizado, sono, brincadeiras e participação nas atividades do dia a dia. Em palestra na Jornada do Autismo RJ 2026, a terapeuta ocupacional Lígia Maria de Godoy Carvalho explicou como essas alterações aparecem, quais sinais merecem atenção e que estratégias práticas podem ajudar em casa, na escola e nos ambientes sociais.
Disfunções sensoriais em crianças com TEA: o que a palestra de Lígia Carvalho mostrou na prática
Durante a palestra sobre Integração Sensorial e o TEA, a terapeuta ocupacional Lígia Maria de Godoy Carvalho trouxe um ponto essencial para famílias e profissionais: muitas crianças autistas apresentam diferenças sensoriais importantes, mas isso não significa que todo comportamento desorganizado tenha causa sensorial. Entender essa diferença muda completamente a forma de acolher, interpretar e intervir.
Esse é um tema que costuma aparecer no cotidiano de forma muito concreta. Há crianças que tapam os ouvidos, evitam certos tecidos, se incomodam com luzes, buscam movimento o tempo todo, mordem objetos, tropeçam com frequência, usam força em excesso ou parecem não perceber bem o próprio corpo. Em outras situações, a criança pode apresentar irritação, fuga, choro, agitação ou até comportamentos autoagressivos. O alerta da palestra foi claro: o comportamento pode até ter expressão sensorial, mas a origem nem sempre é sensorial.
O que são disfunções sensoriais no TEA
A palestrante explica que as disfunções sensoriais se referem a alterações no processamento e na modulação das informações sensoriais vindas do ambiente e do próprio corpo. Também mostra que a maioria das crianças com TEA apresenta diferenças sensoriais, com prevalência entre 70% e 90%, dependendo do método e da amostra estudada. Entre as respostas incomuns, aparecem hipersensibilidade ou hipossensibilidade a sons, luzes e texturas, além de fascínio por certos estímulos e aparente indiferença à dor ou à temperatura.
A palestra também define o processamento sensorial como a forma como o cérebro recebe, localiza, interpreta e responde às informações que chegam pelos sentidos. Isso inclui não apenas visão, audição, olfato e gustação, mas também a propriocepção e o sistema vestibular. Quando esse processamento falha, a criança pode ter dificuldade de entender melhor o ambiente e de responder a ele de forma organizada.
Nem sempre a causa do comportamento é sensorial
Esse foi um dos trechos mais importantes de toda a fala. Segundo Lígia, vários fatores podem desencadear um comportamento desorganizado além da questão sensorial. Entre eles estão fatores emocionais, condições de comunicação ou falta de comunicação, busca por atenção, tentativa de escapar de tarefas difíceis, demandas cognitivas ou motoras muito altas, fatores ambientais, fome, dor, cansaço, desconforto físico e a própria história de aprendizagem da criança.
Na prática, isso significa que o adulto não deve interpretar automaticamente uma crise, um afastamento ou uma recusa como algo “puramente sensorial”. Em algumas situações, a criança está frustrada. Em outras, está cansada. Em outras, não conseguiu comunicar o que precisava. E, sim, em muitos casos também pode estar em sofrimento sensorial. A diferença é que a intervenção correta depende dessa leitura mais cuidadosa.
Esse ponto é especialmente importante porque, como a própria palestrante alerta, pode “dar muito ruim” quando um comportamento de base sensorial é tratado apenas como questão comportamental, ou quando um comportamento de outra origem é interpretado como sensorial sem ser. A avaliação qualificada é o que ajuda a separar essas situações.
Quando o comportamento pode ser sensorial e comportamental ao mesmo tempo
A palestra também aborda situações em que o comportamento pode ter função sensorial e comportamental ao mesmo tempo. Um dos exemplos citados é o dos comportamentos autoagressivos graves que geram uma sensação interna reforçadora. Nesses casos, a própria ação produz uma consequência sensorial ou fisiológica que reforça sua repetição.
Entre os exemplos citados estão bater a cabeça, morder o braço, pressionar os olhos, arrancar pele e bater no corpo. De acordo com a explicação apresentada, esses comportamentos podem produzir inputs como estimulação vestibular, propriocepção profunda, pressão intensa, tato mais forte, vibração ou impacto. Por isso, não basta olhar apenas o comportamento em si. É preciso observar o que aquela ação está gerando sensorialmente para a criança.
Esse raciocínio é muito importante para profissionais e famílias porque desloca o foco da punição ou da interpretação moral do comportamento. Em vez de pensar apenas “por que ela está fazendo isso?”, a análise passa a incluir também “o que essa ação está provocando no corpo dessa criança?”.
Modulação sensorial e discriminação sensorial não são a mesma coisa
Outro ponto muito relevante da palestra foi a diferença entre problemas de modulação e problemas de discriminação sensorial.
Na modulação, a criança pode reagir com hiperreatividade, hiporreatividade ou busca sensorial. Em situações de sobrecarga, a resposta comportamental pode variar bastante. Algumas crianças “desligam” e se desconectam do ambiente. Outras ficam excessivamente preocupadas, distraídas, irritadas ou entram em resposta de luta e fuga.
Já na discriminação sensorial, a dificuldade está em identificar, diferenciar e interpretar com precisão as qualidades dos estímulos. A palestra explica que, quando a criança não discrimina bem os estímulos sensoriais, fica mais difícil compreender o corpo, organizar os movimentos e planejar ações. É aí que surgem dificuldades muito funcionais no dia a dia.
Isso pode aparecer como dificuldade para localizar toques ou partes do corpo, alterações no controle postural, prejuízo na coordenação motora bilateral, mais esforço para aprender novas ações e impacto direto na execução de tarefas, atividades e rotinas. A palestrante destaca que essas falhas afetam diretamente a práxis, ou seja, o fazer da criança.
Como isso aparece na vida real
Na palestra, Lígia traz exemplos muito práticos. Ela explica que a criança com dificuldade de discriminação pode ser aquela que tropeça, bate nas coisas, parece desajeitada, não organiza bem o corpo e tem dificuldade para planejar ações. Isso interfere no desempenho escolar, na forma de pegar o lápis, usar a borracha, executar atividades da vida diária e até brincar.
Ou seja, o impacto não fica restrito a um “jeito diferente” de reagir ao ambiente. As dificuldades sensoriais podem comprometer autonomia, aprendizado, participação nas rotinas e até a forma como a criança é interpretada por outras pessoas.
Os três sistemas mais importantes destacados por Lígia Carvalho
Ao apresentar a teoria da Integração Sensorial, a palestrante retoma a contribuição de Anna Jean Ayres e destaca três sistemas fundamentais: vestibular, proprioceptivo e tátil.
Sistema vestibular
O sistema vestibular detecta movimento e posição da cabeça. Ele contribui para equilíbrio, controle postural, orientação espacial, movimento dos olhos, nível de alerta e organização motora. Na palestra, Lígia chama atenção para o fato de que, quando o nível de alerta sai da “banda ótima”, a criança pode perder atenção, engajamento e capacidade de participar da atividade.
Ela também explica que algumas crianças precisam de estratégias mais inibitórias quando estão com o nível de alerta muito alto, enquanto outras precisam de estímulos mais excitatórios quando estão muito abaixo. Esse detalhe é importante porque mostra que o mesmo recurso não serve para todas as crianças.
Sistema proprioceptivo
A propriocepção informa sobre posição e movimento do corpo. Também participa do controle de força e precisão dos movimentos, da consciência corporal, da coordenação e do planejamento motor. A palestrante dá exemplos bastante claros: a criança que quebra o brinquedo ao pegar, que abraça forte demais ou que parece agressiva quando, na verdade, está com dificuldade de calibrar a força.
Esse ponto é muito útil para famílias e professores porque ajuda a reduzir interpretações equivocadas. Em vez de pensar que a criança “fez de propósito”, pode ser mais adequado investigar uma dificuldade proprioceptiva.
Sistema tátil
O sistema tátil percebe toque, pressão e textura. Também contribui para a consciência corporal, exploração dos objetos e modulação sensorial. A palestra dá destaque especial à defensividade tátil, muito comum em crianças com TEA. Nesses casos, um toque leve, que seria agradável para muitas pessoas, pode ser vivido como incômodo ou irritação intensa.
Lígia faz um alerta muito prático: quando a criança está muito sensibilizada no sistema tátil, insistir em toques suaves pode piorar a situação. Em muitos casos, pressão profunda ou materiais mais secos e mais firmes podem ser melhor tolerados do que toques leves e repetidos.
Integração Sensorial: o que é e como o tratamento é pensado
A palestra apresenta Anna Jean Ayres como a terapeuta ocupacional que desenvolveu a teoria da Integração Sensorial, relacionando sensações corporais, mecanismos cerebrais e aprendizagem. Nos slides, a Integração Sensorial é definida como o processo neurobiológico que organiza as sensações do próprio corpo e do ambiente, possibilitando organização do comportamento e uso eficiente do corpo nas atividades cotidianas.
A fala também mostra que a abordagem não se resume a colocar a criança em balanços ou outros materiais de integração sensorial sem critério. Pelo contrário: cada equipamento, cada direção de movimento, cada tipo de estímulo e cada atividade têm uma função específica. Por isso, a palestrante insiste na necessidade de formação robusta do terapeuta ocupacional para avaliar a disfunção sensorial e escolher os recursos mais adequados.
Quais estratégias de tratamento foram destacadas
Nos slides, as estratégias principais de tratamento em Integração Sensorial incluem:
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oferta de experiências sensoriais organizadoras;
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inputs vestibulares, proprioceptivos e táteis planejados;
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desafio na medida certa;
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promoção de respostas adaptativas;
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engajamento ativo e motivação pelo brincar;
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organização do ambiente terapêutico e mediação intencional do terapeuta.
Esse conjunto mostra que a lógica do tratamento não é “estimular por estimular”. O objetivo é organizar, modular, favorecer respostas mais eficientes e ampliar a participação funcional da criança.
Estratégias práticas para casa, escola e comunidade
Na parte final da palestra, Lígia apresenta ideias e acomodações sensoriais para o cotidiano. Entre os recursos citados para casa e outros ambientes estão cama elástica, fones de ouvido, cabaninhas com menos luz, balanço, cobertor ponderado, coletes com ou sem peso, faixas de neoprene, mordedores, bola e almofada de equilíbrio, fidgets, caixa de areia e grãos. Também são mencionadas adaptações para a escola e a importância dos parques e ambientes sociais como espaços de vivência sensorial.
Mais importante do que decorar a lista é entender o princípio: esses recursos não são acessórios aleatórios. Eles devem ser escolhidos conforme a necessidade da criança e com orientação adequada. Um fone de ouvido pode ser útil em contexto de sobrecarga auditiva. Um espaço mais escuro pode ajudar em momentos de excesso visual. Um cobertor ponderado pode favorecer relaxamento e sono em alguns casos. Mordedores podem atender uma necessidade oral motora importante.
A palestra também reforça que essas acomodações não substituem a avaliação. Elas fazem mais sentido quando estão integradas a um raciocínio clínico e funcional.
O que famílias e profissionais podem levar dessa palestra
O grande mérito da fala de Lígia Carvalho foi mostrar que compreender as disfunções sensoriais no TEA exige olhar técnico, sensibilidade e muita observação. Não basta dizer que a criança “não gosta” ou “gosta demais” de certos estímulos. É preciso entender como o cérebro está recebendo e organizando essas informações e como isso afeta comportamento, movimento, rotina, aprendizagem e participação.
Outro ponto forte foi a ênfase em não reduzir tudo a “sensorial”. Esse cuidado protege a criança de interpretações simplistas e ajuda profissionais e famílias a fazerem escolhas mais acertadas. Às vezes, a melhor resposta será uma acomodação sensorial. Em outras, será ajustar a demanda, oferecer comunicação alternativa, rever o ambiente ou considerar fatores emocionais e fisiológicos.
Conclusão
As disfunções sensoriais em crianças com TEA têm impacto real na vida diária e podem interferir no comportamento, no brincar, no sono, na escola, nas relações e na autonomia. A palestra de Lígia Maria de Godoy Carvalho mostrou que compreender esse tema vai muito além de identificar hipersensibilidades: envolve diferenciar modulação de discriminação, reconhecer quando o comportamento não é sensorial e entender que cada criança precisa ser avaliada de forma individual.
Para famílias e profissionais, a principal lição é esta: observar melhor muda a forma de cuidar. Quando o adulto entende o que pode estar por trás da desorganização, ele deixa de responder apenas ao comportamento visível e passa a apoiar a criança com mais precisão, respeito e funcionalidade.


