Crises Agressivas no Autismo: o que está por trás desse comportamento | Dr. Thiago Gusmão

Palestra do Dr. Thiago Gusmão sobre crises agressivas no TEA na Jornada do Autismo 2026
Dr. Thiago Gusmão durante palestra sobre crises agressivas no TEA | Jornada do Autismo 2026

Durante a Jornada do Autismo 2026, o médico especialista Dr. Thiago Gusmão apresentou uma palestra abrangente sobre um dos temas que mais geram angústia em famílias e profissionais: as crises agressivas no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Com base em neurobiologia, análise funcional do comportamento e uma leitura honesta da realidade brasileira, Gusmão trouxe explicações, dados e caminhos práticos para compreender e manejar esses momentos de forma segura e digna.

Este conteúdo é de caráter educativo e informativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento por profissional de saúde habilitado.

Rigidez cognitiva: a raiz das crises

Para o Dr. Thiago Gusmão, entender as crises agressivas no autismo começa por reconhecer uma característica central do TEA: a rigidez cognitiva. Presente em praticamente 100% dos casos, ela vai muito além do que costuma ser chamado de “teimosia”. Trata-se de uma característica biológica que interfere diretamente na capacidade do indivíduo de adaptar-se a mudanças, flexibilizar rotinas e tolerar imprevistos.

Famílias que convivem com essa realidade conhecem bem o que isso significa na prática: anos aceitando que o filho só come determinado alimento, que o trajeto até a escola não pode variar um centímetro, que a quebra de qualquer rotina pode desencadear uma crise intensa. Não é escolha — é o modo como o sistema nervoso desse indivíduo processa o mundo.

O palestrante fez um ponto importante: a terapia comportamental isolada, por mais bem conduzida que seja, encontra limites quando o cérebro está biologicamente rígido. A terapia não consegue “entrar” se não houver, em paralelo, um trabalho médico voltado a flexibilizar esse organismo. Daí a importância do trabalho integrado entre o médico e os terapeutas — não como complemento, mas como condição para que o tratamento avance.

Comorbidades que alimentam as crises

A agressividade no TEA raramente aparece de forma isolada. Ela costuma ser alimentada — ou amplificada — por transtornos que coexistem com o autismo e que, quando não identificados e tratados, mantêm o indivíduo em um estado permanente de sobrecarga.

Dois grandes motores das crises, segundo Gusmão, são a ansiedade e a depressão. Um dado apresentado na palestra chama atenção: 37% dos adolescentes autistas têm diagnóstico de depressão. O sofrimento emocional, muitas vezes silencioso e difícil de nomear, se manifesta no corpo e no comportamento — inclusive como agressividade.

Outro recorte significativo diz respeito às meninas: entre as autistas com TDAH, 72% apresentam níveis elevados de ansiedade. Um dado que reforça a necessidade de olhar com atenção para o perfil feminino no TEA, historicamente subdiagnosticado e subatendido.

Há ainda uma questão neurológica que conecta ansiedade e agressão: a falha no controle inibitório. O autismo compromete o funcionamento do “freio” cerebral — aquele mecanismo que, em situações de tensão, nos permite pausar antes de reagir. Quando a ansiedade sobe e esse freio não responde, o impulso agressivo escapa. O resultado é o que Gusmão chama de comportamento reativo: uma resposta automática do sistema nervoso, não uma escolha consciente do indivíduo.

Por que o autista se apega tanto à rotina? A neurobiologia dos hábitos

Para explicar a rigidez do ponto de vista neurológico, o Dr. Gusmão apresentou o papel dos gânglios da base — estruturas cerebrais responsáveis pela formação e manutenção de hábitos. No autismo, essas regiões trabalham em ritmo elevado, como se precisassem compensar a constante incerteza que o ambiente impõe.

O mecanismo funciona assim: para o cérebro autista, qualquer mudança no ambiente ou na rotina é processada como uma ameaça real. A repetição — o mesmo caminho, o mesmo prato, o mesmo horário — não é capricho. É o que mantém o sistema nervoso organizado e seguro. A rotina é a ancora que impede o colapso diante de um mundo imprevisível.

Quando essa rotina é retirada de forma abrupta, sem preparo, sem antecipação, o cérebro entra em colapso. É nesse ponto que emergem as crises — inclusive as agressivas. Não como manipulação, mas como resposta legítima de um sistema nervoso que foi além do seu limite.

Por que ele agride? As quatro funções do comportamento

Uma das contribuições mais práticas da palestra foi a apresentação da análise funcional do comportamento agressivo. Gusmão explicou que toda agressão cumpre uma função — e identificar essa função é o primeiro passo para qualquer intervenção eficaz.

Fuga ou esquiva

A agressão é usada para encerrar uma situação insuportável. Bater, morder ou empurrar faz com que a demanda pare: a exigência de ir para a escola, o barulho insuportável de um ambiente, a tarefa que está acima da capacidade de tolerância naquele momento. O comportamento funciona — e por isso se repete.

Busca de atenção

Quando o indivíduo não tem ferramentas de comunicação verbal eficazes, a agressão pode ser a única forma de dizer “olhe para mim”. Não é manipulação — é comunicação em sofrimento. A mensagem existe; o canal é que falhou.

Acesso a algo desejado

A agressão pode aparecer como meio de conseguir um objeto, um alimento ou o acesso ao celular. Aqui também a função é clara: o comportamento obteve resultado em algum momento e passou a ser repetido.

Reforço automático (sensorial)

Em alguns casos, a própria agressão — bater a cabeça, se morder, bater os braços — gera uma forma de regulação interna. Para um sistema nervoso em “pane”, o estímulo físico intenso pode funcionar como um regulador. Não há intenção comunicativa: é o corpo tentando se reequilibrar.

Compreender qual dessas funções está em jogo em cada situação muda completamente a abordagem de intervenção. Tentar suprimir o comportamento sem entender sua função tende a resultar em substituição por outros comportamentos igualmente problemáticos.

Dores que ninguém vê: os fatores orgânicos das crises

Um dos pontos mais importantes — e muitas vezes ignorados — levantados pelo Dr. Gusmão foi o papel das dores físicas não comunicadas como gatilho de crises agressivas.

Enxaquecas intensas, constipação intestinal, cólicas menstruais severas: quando o autista não tem recursos para comunicar que está sentindo dor, o corpo fala de outro modo. A crise agressiva pode ser, literalmente, um grito de socorro de alguém que está sofrendo fisicamente e não consegue dizer.

Essa realidade torna ainda mais grave um problema que Gusmão criticou com clareza: o uso de doses elevadas de antipsicóticos — como haloperidol e risperidona — com o único objetivo de sedar o indivíduo. Medicar para dopar, sem investigar se há dor, sem avaliar se o ambiente está insuportável, sem buscar a causa — é uma prática que o palestrante classifica como inadequada e que precisa ser enfrentada.

O cenário das instituições brasileiras também foi abordado com realismo. APAEs, escolas especiais e centros de atendimento enfrentam uma realidade concreta: profissionais e famílias sem treinamento adequado diante de adultos autistas — com 80, 90 quilos — em crise aguda. A falta de estrutura não é culpa de quem está na linha de frente, mas exige soluções sistêmicas urgentes.

Como manejar uma crise com segurança e dignidade

O encerramento da palestra foi um apelo direto pela humanização no manejo das crises. Gusmão defendeu que profissionais e famílias precisam de dois tipos de preparo: físico e emocional.

Do ponto de vista físico, existem protocolos de contenção que permitem reduzir os riscos — tanto para o autista quanto para quem está ao lado — sem recorrer a abordagens que causem dor, humilhação ou lesão. Esses protocolos precisam ser ensinados, praticados e atualizados regularmente.

Do ponto de vista emocional, é fundamental lembrar: o autista em crise não está atacando. Ele está sofrendo. A agressividade é o sinal visível de um sistema nervoso que chegou ao limite — seja por sobrecarga sensorial, por dor física, por ansiedade extrema ou pela quebra de uma rotina que era sua única segurança.

“A ciência não é feita só para cientistas; ela é para vocês aplicarem no dia a dia, para dar dignidade a essas pessoas.” — Dr. Thiago Gusmão

Essa frase resume a proposta da palestra: transformar conhecimento técnico em ação cotidiana. Porque dignidade não é um conceito abstrato — é o que acontece (ou deixa de acontecer) no momento de uma crise, nas decisões que são tomadas naquele instante, no modo como o indivíduo é tratado quando está mais vulnerável.

O que fica desta palestra

A contribuição do Dr. Thiago Gusmão na Jornada do Autismo 2026 oferece uma síntese valiosa para famílias, educadores e profissionais de saúde: crises agressivas no TEA têm causas identificáveis, funções compreensíveis e formas de manejo que respeitam a integridade do indivíduo. Ignorar a neurobiologia, suprimir o comportamento sem entender sua função ou medicar para silenciar são caminhos que não resolvem — e frequentemente agravam. O caminho passa por integração entre medicina e terapia, por investigação cuidadosa dos fatores orgânicos e ambientais, e por uma postura que coloque a dignidade da pessoa autista no centro de qualquer decisão.

Conteúdo produzido pelo Portal do TEA com base na palestra do Dr. Thiago Gusmão apresentada na Jornada do Autismo 2026. Material de caráter educativo. Não substitui avaliação ou acompanhamento profissional.

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