ENTREVISTAS

Eugênio Cunha

Professor, doutor em educação, psicopedagogo, pedagogo da Fundação Municipal de Educação de Niterói, especialista em educação especial inclusiva e autismo. Autor dos livros: “Afeto e aprendizagem”, “Autismo e inclusão”, “Afetividade na prática pedagógica”, “Práticas pedagógicas para inclusão e diversidade”, “Autismo na escola: um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar” e “Educação na família e na escola”, publicados pela WAK Editora.

Inclusão que conecta e transforma: a visão de Eugênio Cunha

Na Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla 2025, o professor e pesquisador Eugênio Cunha destaca a importância da escuta ativa, da valorização das potencialidades e da articulação entre educação, saúde e assistência social. Ele reforça que a inclusão verdadeira vai além do discurso e se materializa em práticas pedagógicas, políticas públicas e relações humanas transformadoras.

Qual a importância de escutar verdadeiramente as pessoas com deficiência intelectual e múltipla na construção de políticas públicas e práticas educacionais?

É preciso uma escuta ativa. São mais dois movimentos além da escuta: a validação e o acolhimento. Dessa forma, no campo escolar ou social, garantimos que as políticas e práticas sejam materializadas com base nas reais necessidades da pessoa com deficiência. Isso evita o assistencialismo e o paternalismo, garantindo que as decisões sejam tomadas com as pessoas com deficiência, e não apenas por elas, promovendo sua autonomia e cidadania.

Em sua experiência, como a escola pode incorporar a escuta ativa e valorizar as vozes desses estudantes no cotidiano escolar?

 Primeiramente, humanizando as relações de inclusão. São pessoas e são identidades. Assim, a escola pode incorporar a escuta ativa por meio de uma relação de alteridade. Em termos práticos, individualizando os currículos, percebendo as potencialidades de cada aprendente. A deficiência não pode ser olhada apenas na perspectiva de um laudo médico, mas principalmente na perspectiva das potencialidades. Além disso, precisamos criar espaços seguros e acessíveis para que os alunos possam se expressar, e que suas opiniões sejam valorizadas e respeitadas.

Quais são os principais desafios enfrentados pelas redes públicas de ensino para garantir uma inclusão efetiva e contínua?

Evidentemente, temos carências estruturais, formativas, tecnológicas, dentre outras que permeiam o chão da escola. Porém, o maior desafio está nas articulações intersetoriais entre educação, saúde e assistência social. Matrícula escolar não é garantia de inclusão se a pessoa com deficiência não tem suporte multiprofissional. Para muitas famílias, a escola é única representação da cidadania, pois elas não têm acesso a outros direitos básicos garantidos por lei. Os maiores desafios no processo de escolarização advêm dos aspectos clínicos do estudante. É preciso lembrar que existem outros direitos além do escolar. Esses direitos, o mais das vezes, são quase intangíveis, como o direito à saúde.

Que práticas pedagógicas você já acompanhou que realmente conectam e somam no processo de inclusão?

Práticas que promovem a aprendizagem colaborativa são essenciais. Por exemplo, atividades em grupo em que cada aluno, com ou sem deficiência, contribui com uma habilidade diferente. Também as que utilizam a metodologia de projetos, onde os temas são de interesse de todos, garantindo que cada um participe ativamente. O Desenho Universal para a Aprendizagem, DUA, tem propiciado boas experiências na educação. Enquanto a adaptação curricular tradicional busca adaptar o currículo para atender às necessidades específicas de um aluno, o DUA busca adaptar o ambiente de aprendizagem e os recursos para atender às necessidades de todos os alunos. O ideal não é apenas uma adaptação individualizada para cada aluno, mas sim uma abordagem para criar um ambiente de aprendizagem que seja acessível e eficaz para todos os alunos, contemplando suas necessidades ou habilidades.

O que ainda precisa mudar na formação inicial e continuada dos professores quando falamos de inclusão de estudantes com deficiência intelectual e múltipla?

É necessário incluir nos currículos mais horas de prática, com experiências vivenciais e formativas.  É necessário que a formação vá além da teoria, com vivências práticas e estágios em ambientes inclusivos desde o início da graduação. É preciso desenvolver a capacidade de adequações curriculares, o uso de tecnologias assistivas e, principalmente, a reflexão sobre preconceitos e a desconstrução de ideias capacitistas.

Como podemos enfrentar o capacitismo e as barreiras atitudinais que ainda estão muito presentes nas escolas e comunidades?

O enfrentamento do capacitismo exige educação e conscientização da sociedade. As escolas são importantes nesse processo, principalmente porque podem formar as famílias. No campo social e educacional essa conscientização  pode ser feita por meio de palestras, rodas de conversa e projetos que promovam a empatia.

O que significa, na prática, ‘conectar e somar’ quando pensamos em oportunidades de participação plena das pessoas com deficiência na sociedade?

Incluir vai além da presença física. É garantir que a pessoa com deficiência possa contribuir e ser valorizada por suas ideias, talentos e perspectivas. É construir espaços de trabalho, lazer e socialização em que a participação de todos é esperada e encorajada. Precisamos entender que educação é relação humana, não apenas instrução.

Em sua trajetória, você pode compartilhar uma experiência marcante que represente uma inclusão verdadeira, que deu certo?

Conheci um menino com TEA. Inicialmente, era considerado por alguns como uma criança de alto comprometimento, com extrema dificuldades de socialização e aprendizagem. Ele frequentava uma classe comum do primeiro ano do fundamental. Não gostava de escrever, não queria aprender a escrever, não queria pegar o lápis. Brincava com bonecos e interagia com os personagens que eles representavam. Elaboramos uma atividade, que consistia numa proposta para toda turma de escrever uma carta para os personagens que as crianças mais amavam. Para satisfação de todos, ele começou a escrever para um personagem que ele tanto gostava: tratava-se do cowboy Woody, do desenho “Toy Story”, superando a rejeição pela escrita. Anos mais tarde, no final do ensino fundamental, participei da sua formatura na escola. Atualmente, ele está na universidade.

Quais sinais mostram que a inclusão está de fato acontecendo e não apenas no discurso?

Vou falar do campo da educação.

Quando a escola procura adequar suas estratégias de acordo com o educando. Quando esse educando tem suporte multiprofissional. Quando as famílias estão inseridas numa rede de apoio. Quando estão engajadas e juntas com a escola. Quando professores têm apoio e acesso a formações permanentes. Quando o olhar para o estudante vai além do laudo médico e de metodologias de ensino e contemplam a humanidade do aprendente.

Como a educação inclusiva pode transformar a sociedade de forma mais ampla, além da sala de aula?

Acredito que de forma orgânica, a partir de pequenos espaços ou pequenas ações. Da sala de aula para a escola e família; da escola para a sociedade e assim por diante. Acho que a maior construção é a interior, dentro do indivíduo. Uma formação que valorize o humano que está em todos nós. Não podemos ver a inclusão como um serviço, mas como um direito. Não podemos ver a escola como uma mercadoria, mas como o espaço fundante desse direito.

Para finalizar, que mensagem você deixaria para educadores, gestores e famílias nesta Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla?

Vou trazer à memória alguns versos de “Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira: “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz”. Nós temos o DNA da aprendizagem, todos podem aprender e desenvolver seu potencial. Além disso: “Conhecer O sabor das massas e das maçãs”. As massas fazemos com as nossas mãos, são frutos do nosso trabalho. As maçãs estão na natureza. Ninguém faz uma maçã. Então, não devemos jamais destituir do trabalho de nossas mãos a nossa natureza humana e afetiva.

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