Mulheres autistas estão entre os grupos mais vulneráveis ao suicídio, mas essa realidade ainda é pouco reconhecida. A camuflagem social, o diagnóstico tardio, o isolamento e a falta de apoio adequado são fatores que aumentam significativamente o risco. Neste post, vamos entender os dados, causas e caminhos possíveis de acolhimento e prevenção.
O suicídio é um tema delicado, mas urgente. No caso do autismo feminino, o risco é especialmente elevado — e muitas vezes invisibilizado. A sociedade tende a enxergar mulheres autistas com TEA nível 1 como “funcionais”, “inteligentes” e “independentes”. Por trás dessa aparência, porém, pode haver sofrimento profundo, solidão crônica e uma sensação persistente de inadequação.
O suicídio no autismo feminino não acontece por fraqueza ou falta de resiliência. Ele é resultado de um conjunto de fatores que se acumulam ao longo dos anos — e que precisam ser compreendidos para que ações reais de acolhimento e prevenção possam acontecer.
1. Os números que não podemos ignorar
Estudos recentes mostram que mulheres autistas sem deficiência intelectual apresentam taxas de ideação suicida até três vezes maiores do que a população geral. Uma pesquisa realizada no Reino Unido com adultos diagnosticados com autismo revelou que 66% das mulheres autistas relataram pensamentos suicidas, contra 17% da população neurotípica【1】.
Além disso, o risco de tentativas de suicídio é mais alto entre mulheres autistas do que entre homens no espectro, especialmente quando o diagnóstico é tardio e o suporte é inexistente【2】.
Esses números deixam claro: não se trata de um caso isolado, mas de um problema de saúde pública negligenciado.
2. Por que mulheres autistas estão em risco aumentado?
Diversos fatores contribuem para a alta taxa de suicídio entre mulheres autistas:
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Camuflagem social (masking): esforço constante para parecer neurotípica, o que leva ao esgotamento e à crise de identidade;
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Diagnóstico tardio: viver décadas sem compreender a si mesma, sendo julgada como “difícil” ou “inadequada”;
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Isolamento social: dificuldade em manter vínculos, sensação de não pertencimento;
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Histórico de bullying, abuso emocional e violência sexual;
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Comorbidades como depressão, ansiedade, transtorno alimentar e TOC;
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Falta de acesso a serviços de saúde mental preparados para acolher mulheres autistas.
Essas experiências, somadas, criam um quadro de sofrimento psíquico intenso e silencioso.
3. O suicídio como grito de exaustão
Para muitas mulheres autistas, os pensamentos suicidas surgem não como desejo de morrer, mas como desejo de parar de sofrer. Frases como “não aguento mais”, “não tenho lugar no mundo” ou “não consigo ser quem esperam de mim” são comuns.
A tentativa de se encaixar em um modelo social rígido, sem acolhimento para as próprias necessidades, pode gerar:
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Burnout autista;
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Despersonalização;
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Desesperança crônica;
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Sensação de fracasso permanente;
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Sentimento de ser um “erro de fábrica”.
O suicídio, nesses casos, aparece como a única forma imaginada de alívio — mas não precisa ser o fim do caminho.
4. Sinais de alerta
Nem sempre os sinais são visíveis, especialmente em mulheres autistas que mascaram bem seus sentimentos. No entanto, é importante estar atento a:
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Recolhimento repentino ou isolamento total;
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Frases sobre “não fazer falta” ou “não ter mais energia”;
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Doações de objetos pessoais ou despedidas simbólicas;
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Alterações abruptas no sono, apetite ou humor;
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Queda no desempenho profissional ou acadêmico;
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Episódios de desregulação emocional intensa.
5. O que pode ser feito: apoio, escuta e prevenção
A prevenção do suicídio no autismo feminino começa com o reconhecimento e a validação do sofrimento. Algumas ações essenciais incluem:
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Promover diagnósticos precoces e assertivos, com escuta atenta à vivência feminina;
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Reduzir o masking oferecendo ambientes onde seja possível ser autista sem precisar camuflar;
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Capacitar profissionais de saúde mental para acolher mulheres autistas sem capacitismo;
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Criar redes de apoio entre pares, onde mulheres autistas possam compartilhar experiências reais;
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Falar abertamente sobre suicídio e sofrimento, sem tabu ou julgamento;
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Garantir acesso a terapias neuroafirmativas, que validem as vivências autistas e não busquem “normalização”.
Além disso, a escuta ativa de familiares, amigos e companheiros pode ser determinante. Uma pergunta simples como “o que você está sentindo?” pode salvar vidas.
6. Se você está passando por isso, saiba: você não está sozinha
A dor pode parecer insuportável agora, mas ela não define quem você é — nem para onde sua vida pode ir. O diagnóstico de autismo pode trazer alívio, compreensão e novos caminhos de cuidado. Buscar ajuda é um ato de coragem, e viver com autenticidade é possível.
Existem profissionais, grupos e pessoas dispostas a caminhar com você, no seu tempo, do seu jeito. Seu valor não está em ser “funcional”, mas em existir — com suas sensibilidades, seus limites e sua maneira única de estar no mundo.
Conclusão
O suicídio no autismo feminino é um alerta que precisa ser ouvido. Por trás do sorriso camuflado, pode haver um pedido de socorro silencioso. É hora de romper o silêncio, validar o sofrimento e construir espaços de apoio onde mulheres autistas possam viver com dignidade, verdade e esperança.
Referências bibliográficas
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Cassidy, S., Bradley, L., Shaw, R., & Baron-Cohen, S. (2018). Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism, 9(1), 1–14.
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Cassidy, S., Bradley, L., Robinson, J., Allison, C., McHugh, M., & Baron-Cohen, S. (2014). Suicidal ideation and suicide plans or attempts in adults with Asperger’s syndrome attending a specialist diagnostic clinic: A clinical cohort study. The Lancet Psychiatry, 1(2), 142–147.
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Hull, L., Petrides, K. V., & Mandy, W. (2020). The Female Autism Phenotype and Camouflaging: a Narrative Review. Review Journal of Autism and Developmental Disorders, 7, 306–317.
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Bargiela, S., Steward, R., & Mandy, W. (2016). The Experiences of Late-diagnosed Women with Autism Spectrum Conditions: An Investigation of the Female Autism Phenotype. Journal of Autism and Developmental Disorders, 46(10), 3281–3294.
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Organização Mundial da Saúde (2022). Prevenção do suicídio: um imperativo global. https://www.who.int