Ser mãe e autista: desafios e acolhimento para mulheres no espectro

Muitas mulheres autistas são mães — e essa experiência pode ser marcada tanto por amor profundo quanto por sobrecarga sensorial, emocional e social. Neste post, refletimos sobre os desafios da maternidade no autismo feminino, as expectativas sociais envolvidas e a importância do acolhimento e suporte individualizado.

A maternidade é um momento transformador, intenso e complexo para qualquer mulher. No entanto, para as mulheres autistas, ela pode trazer desafios únicos — muitas vezes invisíveis. A romantização da maternidade, os padrões sociais rígidos e a falta de compreensão sobre o espectro tornam ainda mais difícil a experiência de ser mãe enquanto autista.

A sociedade costuma idealizar mães como pacientes, disponíveis, multitarefas e altamente sociáveis. Mas mulheres autistas, com suas especificidades sensoriais, emocionais e cognitivas, nem sempre se encaixam nesse modelo — e não deveriam precisar se encaixar. Este post é um convite à empatia, à escuta e à validação da maternidade vivida por mulheres no espectro.

1. Sim, mulheres autistas podem ser mães — e são

Apesar de ainda pouco representadas nas pesquisas e nos serviços de saúde, mulheres autistas se tornam mães em taxas semelhantes às mulheres neurotípicas, especialmente aquelas com diagnóstico de TEA nível 1 ou diagnóstico tardio【1】.

Muitas relatam uma conexão intensa e única com seus filhos, uma forma singular de observar, ouvir e se relacionar com o mundo infantil. No entanto, também enfrentam sobrecargas significativas, principalmente quando há:

  • Diagnóstico tardio (ou ausência dele);

  • Falta de apoio familiar;

  • Incompreensão por parte de profissionais de saúde e educação;

  • Cobrança para desempenhar papéis maternos tradicionais.

2. Demandas sensoriais e emocionais da maternidade

A rotina da maternidade envolve inúmeros estímulos que podem ser difíceis para mulheres autistas:

  • Choro constante do bebê;

  • Privação de sono;

  • Contato físico frequente e imprevisível;

  • Bagunça visual, ruídos e toques simultâneos;

  • Interações sociais exigidas em contextos como creches, escolas, pediatras e grupos de mães.

Esses fatores podem levar a episódios de shutdown, meltdowns ou burnout materno, especialmente quando não há rede de apoio e compreensão. Mesmo amando seus filhos profundamente, a mulher autista pode se sentir esgotada — e isso não diminui sua capacidade ou amor.

3. Julgamento social e autoexigência

Mulheres autistas frequentemente se cobram para corresponder a um “ideal de mãe” — sempre presente, carinhosa, organizada e emocionalmente disponível. A pressão social por esse modelo pode gerar:

  • Culpa por não conseguir brincar de forma espontânea;

  • Vergonha por preferir rotina a improvisos;

  • Medo de não estar sendo uma mãe “boa o suficiente”;

  • Dificuldade em pedir ajuda, por receio de críticas.

Além disso, muitos profissionais não reconhecem o autismo em mães adultas, invalidando suas vivências ou atribuindo seus desafios à “falta de instinto materno” — um julgamento cruel e capacitista.

4. Mães autistas de filhos autistas: dupla jornada emocional

Uma parte das mulheres autistas só recebe seu diagnóstico após o diagnóstico de seus filhos. Esse reconhecimento pode vir com alívio — por finalmente compreender sua trajetória —, mas também com peso emocional:

  • Carga dupla de demandas sensoriais, organizacionais e emocionais;

  • Sentimento de inadequação ou comparação com outras mães;

  • Maior risco de esgotamento físico e psicológico.

O ideal é que essa mulher tenha acesso a acolhimento especializado, com terapias que considerem sua neurodivergência e ofereçam suporte individualizado para lidar com a rotina materna.

5. Como apoiar a maternidade no autismo feminino

  • Validar a experiência da mulher autista como mãe, sem romantizar nem subestimar seus desafios;

  • Evitar conselhos prontos ou julgamentos sobre comportamento materno;

  • Oferecer comunicação direta, previsível e sem rodeios, especialmente em ambientes médicos e escolares;

  • Respeitar seus limites sensoriais, como evitar toque não solicitado ou ambientes superestimulantes;

  • Reconhecer que cada mulher autista tem um jeito único de maternar — e isso não a torna menos capaz;

  • Incluir o tema nas políticas públicas de saúde e assistência social, garantindo acesso a apoio psicológico, grupos de suporte e redes comunitárias.

6. Um novo modelo de maternidade possível

Ser mãe enquanto autista é possível — mas exige que a sociedade amplie seu olhar sobre o que é uma “boa mãe”. Mulheres autistas podem ser mães sensíveis, responsáveis, observadoras, intuitivas e amorosas. Mas, para isso, precisam de espaços que respeitem sua forma de viver e sentir.

Não há um único jeito de ser mãe. E quando damos voz às mães autistas, descobrimos formas muito mais plurais, reais e humanas de maternar.

Conclusão

A maternidade no autismo feminino precisa ser mais falada, reconhecida e apoiada. Por trás da sobrecarga, há mães que amam profundamente, mesmo que vivam isso de forma diferente. Com acolhimento, informação e redes de apoio, é possível que essas mulheres sejam mães com mais verdade, leveza e dignidade — do jeito delas.

Referências bibliográficas

  1. Pohl, A. L., Crockford, S. K., Blakemore, M., Allison, C., & Baron-Cohen, S. (2020). A comparative study of autistic and non-autistic women’s experience of motherhood. Molecular Autism, 11(3), 1–11.

    https://doi.org/10.1186/s13229-020-00316-5

  2. Rogers, C., & Leach, J. (2017). Being a mother with autism: A qualitative study. Autism, 21(8), 891–901.

  3. Bargiela, S., Steward, R., & Mandy, W. (2016). The Experiences of Late-diagnosed Women with Autism Spectrum Conditions. Journal of Autism and Developmental Disorders, 46(10), 3281–3294.

  4. Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M. C., & Mandy, W. (2017). Gender differences in self-reported camouflaging in autistic and non-autistic adults. Autism, 21(6), 819–829.

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