No Congresso Jornada do TEA 2026, o neuropsicólogo Thiago Lopes (@dr_thiago_lopes) apresentou uma palestra que foi muito além do consultório. Com casos de Madagascar, críticas ao sistema público de saúde e dados do próprio doutorado, ele mostrou que intervenções simples — e bem direcionadas — podem transformar vidas, independentemente de onde a criança nasce.
Este conteúdo é de caráter educativo e não substitui avaliação ou acompanhamento profissional especializado.
Compromisso social antes do palco
Thiago Lopes abriu sua fala respondendo a uma crítica comum: a de que profissionais que atuam em clínicas privadas estariam alheios à realidade da maioria das famílias. Ele apresentou três frentes de atuação social que mantém em paralelo à clínica:
- Canal no YouTube com mais de 800 vídeos gratuitos de dicas práticas para famílias e profissionais;
- Neuroacademy, uma plataforma com dezenas de cursos a preços populares (a partir de R$ 30);
- Fraternidade Sem Fronteiras, projeto em que participa de caravanas para Madagascar e países do sul da África, atuando em comunidades em situação de vulnerabilidade extrema.
Casos de Madagascar: o que intervenções simples podem fazer
Para ilustrar o impacto de abordagens comportamentais adaptadas a contextos de baixíssima renda, Thiago apresentou três histórias reais.
Elodie, 18 anos: dignidade como ponto de partida
Elodie tinha deficiência intelectual e comportamentos hipersexualizados. Vivia acorrentada no quintal de uma igreja por conta de crenças espirituais da comunidade. A intervenção envolveu a construção de um cômodo extra para garantir privacidade e dignidade, treinamento comportamental para a mãe e encaminhamento para cuidados ginecológicos.
A menina da meningite: uma prancha muda tudo
Após quatro meses imóvel, com o corpo rígido e a língua protrusa, essa criança parecia sem resposta. Thiago percebeu que ela o seguia com o olhar. Usando um chapéu para testar o foco visual, ela estendeu o braço pela primeira vez em meses. Em três dias, com uma prancha de comunicação e exercícios de fisioterapia, ela conseguiu sentar.
A menina do arroz: seletividade alimentar sem recursos
Uma criança autista só aceitava arroz — sete vezes mais caro que a mandioca, alimento básico da família. Em duas semanas, Thiago treinou a irmã de 9 anos para trabalhar gradualmente as texturas da mandioca. A criança passou a aceitar o alimento acessível, aliviando também a pressão econômica da família.
O problema do diagnóstico no Brasil
Thiago fez uma crítica direta à escassez de profissionais e à formação insuficiente em autismo no país. Em Santa Catarina, por exemplo, são aproximadamente 30 neuropediatras para uma população de 7 milhões de habitantes. Além disso, dados de pesquisas indicam que pediatras e psiquiatras recebem, em média, menos de 40 horas de formação específica em TEA durante toda a graduação.
Diante disso, ele convocou psicólogos, fonoaudiólogos e professores a assumirem papel ativo no rastreio: elaborar relatórios objetivos de uma página para subsidiar o médico no diagnóstico, tornando mais difícil a negação do laudo.
Treino parental: muito além da psicoeducação
O modelo predominante no SUS e nas APAEs — uma hora semanal de cada terapia — é insuficiente para produzir desenvolvimento real. A alternativa que Thiago defende é o Treino Parental, diferente da psicoeducação tradicional: em vez de teoria, os pais aprendem na prática, durante o banho, a troca de fralda e a refeição.
Os resultados do próprio doutorado dele são expressivos: crianças cujos pais receberam treinamento prático ganharam, em média, 10 pontos de QI em um ano, com apenas uma hora semanal de treino. O grupo sem treinamento prático não apresentou ganho significativo no mesmo período.
Autismo nas escolas: sair da sensibilização e ir para a prática
As formações de início de ano letivo costumam focar em conscientização e empatia — mas os professores precisam saber o que fazer na segunda-feira de manhã com uma criança em crise. Thiago propõe um modelo de hierarquização: equipes municipais treinadas como multiplicadores, que dão suporte contínuo aos mediadores em sala, com foco especial nos 5% dos casos mais complexos, que exigem análise funcional do comportamento.
O caminho judicial como recurso legítimo
Thiago apresentou o caso de uma menina que teve o atendimento interrompido pela APAE sob pressão da fila de espera. A família recorreu à Defensoria Pública e obteve uma liminar garantindo tratamento intensivo pelo Modelo Denver. Em um ano, a criança recuperou aproximadamente dois anos de atraso no desenvolvimento.
Para famílias nessa situação, a orientação é documentar a ausência de vaga ou a insuficiência do serviço público e acionar a Defensoria. O direito ao tratamento existe — e pode ser exigido.
“Não falta dinheiro no Brasil, falta direcionamento”
Ao encerrar, Thiago questionou a narrativa de que não há recursos para custear o tratamento de crianças autistas, apontando os bilhões aplicados em juros da dívida pública e em isenções fiscais para grandes empresas como contraponto. E homenageou projetos que já atuam na lacuna, como o Projeto Heróis do Amor, liderado por Fabrícia, que oferece atendimento médico, odontológico, lazer e cursos profissionalizantes para famílias de baixa renda e mães solo.
Sua convocação final foi direta: que cada profissional presente dedique ao menos 10% do seu tempo de atendimento a ações sociais.
“Não falta dinheiro no Brasil. Falta direcionamento de recursos e priorização.” — Thiago Lopes
Conteúdo produzido pelo Portal do TEA com base na palestra apresentada no Congresso Jornada do TEA 2026. Material de caráter educativo. Não substitui avaliação ou acompanhamento profissional.


