ARTIGOS

Eduardo de Campos Garcia

Doutor e Mestre em Educação, Arte e História da Cultura; Pós-doc em Educação e Saúde na Infância e Adolescência; PhD em Psicanálise Clínica; Especialista em LIBRAS; Pedagogo. Entre os livros lançados estão “O que todo pedagogo precisa saber sobre Comunicação Inclusiva e “O que todo pedagogo precisa saber sobre Libras”. Ambos pela Wak Editora.

Vamos conversar sobre pessoas com deficiências?

O artigo propõe uma reflexão sobre como a sociedade e a escola compreendem as pessoas com deficiência, questionando termos e perspectivas centrados em limitações clínicas. O autor defende uma educação que reconheça as singularidades humanas, elimine barreiras e compreenda acessibilidade, comunicação e autonomia como direitos de todos. Incluir, nessa perspectiva, é incorporar a escolarização à vida das pessoas.

Na atualidade, muito se fala sobre diversidade humana e, em função disso, as pessoas com deficiências entram em cena como se fossem especiais. Aliás, a palavra “especial” é usada como meio de dar qualidade a estudantes surdos, cegos, cadeirantes, com síndrome de Down, hidrocefalia etc. Soa como delicadeza e algo positivo.

Contudo, todas essas formas de se ver as deficiências precisam ser problematizadas, porque elas são uma informação puramente clínica e, por esse motivo, funcionam como identificação de organismos que não funcionam direito, déficits cognitivos, deformidades anatômicas ou desregulação fisiológica.

Cabe ressaltar que a visão clínica nasce como forma de catalogar as pessoas e tentar, ao diagnosticar o problema, normalizar o que não é comum. Nesse cenário, a palavra “deficiência” auxilia construções culturais que indicam a falta, o sofrimento ou a necessidade de se encaixar em modelos predefinidos de comportamentos.

Por isso, os laudos são documentos que marcam a existência de inúmeras pessoas e, para além do direito, definem onde as pessoas podem e devem estar.

Mas e a escola, o que faz com tudo isso? As informações clínicas auxiliam o professor? Não. Professores precisam de conhecimento pedagógico e, em função disso, algumas concepções precisam ser alteradas.

Em primeiro lugar, é preciso compreender que as pessoas são dotadas de singularidades, ou seja, ninguém é igual a ninguém, e isso precisa ser aplicado à anatomia, à fisiologia e à estética humana.

Segundo, não existem necessidades especiais; as necessidades são humanas. Ou seja, quando um bebedouro é rebaixado, essa ação não deve ser compreendida como uma forma de atender a uma necessidade especial de cadeirantes ou de pessoas com nanismo; afinal, hidratar-se é uma necessidade humana.

Quando se coloca piso tátil, essa providência não é para atender a uma necessidade especial de cegos ou de pessoas com baixa visão; afinal, a mobilidade autônoma é um direito humano.

Libras não se trata de uma necessidade especial das pessoas surdas, porque a quebra de barreiras comunicativas é uma forma de expansão da visão de mundo e das culturas de linguagem. Por isso, pedagogicamente, é preciso desconstruir a visão clínica para que a escola possa desenvolver um trabalho significativo.

Terceiro, “especial” é uma nomenclatura que considera as pessoas como “espécimes” e esse olhar nasce com a Revolução Industrial. Portanto, “especial”, embora a palavra tenha sido banalizada pelo uso ao longo do século XX, relaciona-se com espécimes anormais, e sua intenção foi alijar do convívio social as diferenças.

O próprio Foucault (1926–1984), em seu livro O Nascimento da Clínica, explica que a medicina tem um olhar especista porque vê e separa o ser humano como espécimes: normais/anormais, doentes/sadios, produtivos/inválidos.

Mas essa visão é também política, tanto quanto econômica, porque a deficiência se tornou um objeto cultural. Um exemplo simples do que apresento foi a inclusão das pessoas surdas na categoria de deficientes auditivos, cujo princípio está no início do trabalho nas fábricas e em seus meios de produção.

Se os surdos fossem autorizados a usar a Língua de Sinais no início da Revolução Industrial, atrapalhariam a produção porque as mãos eram o principal instrumento de trabalho. Em função disso, foi mais fácil, como aconteceu no Congresso de Milão (1880), proibir as línguas sinalizadas e considerar as pessoas surdas como inválidas.

Portanto, a surdez foi uma marca não só do ouvido, mas uma justificativa moral que definia o lugar das pessoas surdas na sociedade.

Desse modo, é preciso que a escola faça uma reflexão profunda e repense o que, de fato, lhe é valioso para uma prática que acolha as singularidades humanas. Afinal, educação inclusiva significa incluir a escolarização na vida das pessoas, e não somente as pessoas na escola.

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