O masking, ou camuflagem social, é uma estratégia comum entre mulheres autistas para se adaptarem socialmente. Embora útil no curto prazo, essa prática cobra um alto preço: exaustão, crises de identidade, depressão e até burnout autista. Neste post, discutimos como o masking afeta profundamente a saúde mental de mulheres autistas e o que pode ser feito para apoiar essas vivências.
Ser mulher e autista em uma sociedade que valoriza normas sociais rígidas, comunicação verbal fluida e empatia performática é um desafio constante. Para se proteger, muitas mulheres no espectro desenvolvem o chamado masking — um conjunto de estratégias para parecerem neurotípicas e se encaixarem nos padrões esperados.
No entanto, esse processo, quando repetido por anos, leva à exaustão emocional, confusão sobre a própria identidade e adoecimento psíquico. O tema do masking é central para compreender a saúde mental de mulheres autistas, e neste post vamos explorar como ele atua silenciosamente, quais são os seus efeitos e como é possível construir caminhos de autocuidado mais autênticos.
1. O que é masking e por que ele é tão comum entre mulheres autistas?
Masking (camuflagem social) é o esforço consciente ou inconsciente de esconder características autistas para evitar julgamentos, exclusões ou rótulos negativos. Isso pode incluir:
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Forçar contato visual mesmo com desconforto;
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Ensaiar frases e gestos antes de interações sociais;
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Reprimir estereotipias (movimentos repetitivos como balançar ou bater as mãos);
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Copiar comportamentos e expressões de pessoas neurotípicas;
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Esconder confusão, exaustão ou sobrecarga.
Esse fenômeno é especialmente comum em mulheres autistas, que desde cedo aprendem que precisam ser agradáveis, sociáveis e emocionalmente disponíveis para serem aceitas【1】.
2. Quando a máscara pesa: os efeitos do masking na saúde mental
No início, o masking pode parecer uma forma eficiente de evitar rejeições. Mas, a longo prazo, ele compromete a saúde mental de mulheres autistas, pois exige esforço constante para manter uma “versão falsa” de si mesmas.
Os efeitos mais comuns incluem:
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Ansiedade social intensa, mesmo após interações aparentemente bem-sucedidas;
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Depressão, causada pela sensação de inadequação contínua;
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Crise de identidade, com dúvidas como “quem eu sou de verdade?”;
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Burnout autista, uma exaustão física e emocional extrema;
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Ideação suicida, especialmente quando não há diagnóstico ou apoio adequado.
Estudos indicam que mulheres autistas diagnosticadas tardiamente apresentam índices significativamente maiores de esgotamento e sofrimento psíquico do que mulheres neurotípicas ou homens autistas【2】【3】.
3. O burnout autista: uma consequência grave do masking prolongado
O burnout autista é um estado de colapso mental, físico e sensorial que ocorre após longos períodos de sobrecarga. Ele pode ser desencadeado por:
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Tentativas constantes de mascarar traços autistas;
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Estímulos sensoriais intensos;
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Interações sociais forçadas;
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Ambientes que não respeitam a neurodivergência.
Durante o burnout, a mulher pode:
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Perder habilidades sociais previamente dominadas;
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Ter crises de choro, shutdowns ou mutismo seletivo;
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Sentir que perdeu “energia para existir”.
É fundamental entender que o burnout autista não é preguiça, drama ou desânimo. É um colapso neurobiológico real e exige repouso, retirada de estímulos e acolhimento especializado.
4. A crise de identidade: quem sou eu além da máscara?
Muitas mulheres autistas que passaram a vida mascarando seus traços chegam à idade adulta com uma identidade fraturada. Relatam:
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Sentimento de serem “fraudes”;
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Dificuldade de reconhecer suas emoções ou preferências reais;
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Sensação de estarem sempre atuando;
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Confusão ao tentar se expressar com autenticidade.
Após o diagnóstico, começa um processo de reconstrução de identidade, que pode envolver luto, alívio e redescoberta. Esse processo deve ser apoiado por espaços seguros, grupos de apoio e profissionais com escuta neuroafirmativa.
5. Caminhos para cuidar da saúde mental de mulheres autistas
O primeiro passo para cuidar da saúde mental de mulheres autistas é reconhecer que o sofrimento é legítimo — mesmo quando invisível. Algumas estratégias importantes:
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Reduzir o masking, sempre que possível, e cultivar espaços onde seja seguro ser autista;
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Buscar apoio psicológico especializado em neurodivergência, com foco em autoaceitação e manejo emocional;
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Estabelecer limites claros e praticar o autocuidado com prioridade;
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Participar de redes de apoio e comunidades autistas, que validam experiências e oferecem pertencimento;
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Educar familiares, parceiros e colegas, para que compreendam as necessidades reais de adaptação e respeito.
O objetivo não é “abandonar a máscara de vez” — isso nem sempre é possível ou seguro —, mas escolher quando e com quem vale a pena tirá-la.
Conclusão
A camuflagem social é uma ferramenta de sobrevivência que muitas mulheres autistas aprendem desde cedo — mas que cobra um preço alto. O impacto do masking na saúde mental é profundo, silencioso e muitas vezes negligenciado. Falar sobre isso é essencial para construir um mundo onde mulheres autistas possam existir com mais verdade, segurança e leveza.
Referências bibliográficas
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Cassidy, S., Bradley, L., Shaw, R., & Baron-Cohen, S. (2018). Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism, 9(1), 1–14.
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Raymaker, D. M., Teo, A. R., Steckler, N. A., et al. (2020). “Having All of Your Internal Resources Exhausted Beyond Measure and Being Left with No Clean-Up Crew”: Defining Autistic Burnout. Autism in Adulthood, 2(2), 132–143.
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Bargiela, S., Steward, R., & Mandy, W. (2016). The Experiences of Late-diagnosed Women with Autism Spectrum Conditions: An Investigation of the Female Autism Phenotype. Journal of Autism and Developmental Disorders, 46(10), 3281–3294.
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Attwood, T. (2007). The Complete Guide to Asperger’s Syndrome. Jessica Kingsley Publishers.