ENTREVISTAS

Vitor Aguiar

Profissional de Educação Física, Psicomotricista, Psicopedagogo, Especialista em TEA, Desenvolvimento Neuropsicomotor Infantil e Educação Especial e Inclusiva. Coautor do livro “Guia de Autismo. O caminhar com os corações azuis” (Wak Editora).

A importância da estimulação psicomotora precoce no desenvolvimento de crianças com TEA

Vitor Aguiar destaca a importância dos primeiros anos de vida para a construção das bases motoras, cognitivas e socioemocionais da criança. Na entrevista, explica como reconhecer sinais de alerta no desenvolvimento e por que a estimulação não deve esperar por um diagnóstico de TEA. O especialista também aborda os benefícios da psicomotricidade e orienta famílias sobre como o brincar e a intervenção precoce podem favorecer autonomia, interação e desenvolvimento global.

A primeira infância é considerada um período decisivo para o desenvolvimento infantil. O que acontece nessa fase que torna os primeiros anos de vida tão importantes para o desenvolvimento da criança?

Costumo dizer que a educação infantil é mais importe que a faculdade, mas a sociedade não está preparada para esta conversa.  É na primeira infância que construímos todas as bases motoras, cognitivas e socioemocionais que vamos utilizar ao longo da vida toda. É quando começamos a interagir com as pessoas, conhecemos nosso próprio corpo com suas capacidades e limitações, exploramos o ambiente, experimentamos movimentos, desenvolvemos formas de comunicação, aprendemos a brincar e, aos poucos, conquistamos autonomia. É como o alicerce de uma casa.
O desenvolvimento não acontece separado por áreas. Quando uma criança brinca, corre, sobe, desce, puxa, empurra, pula ou simplesmente tenta descobrir como subir num escorregador, ela não está desenvolvendo apenas uma habilidade motora. Ela está percebendo o espaço, organizando o corpo, tomando decisões, prestando atenção, tentando resolver um problema e aprendendo com aquela experiência. E a criança se desenvolve enquanto experimenta o mundo. Quanto mais oportunidades adequadas ela tem para explorar, brincar, se movimentar e interagir, mais experiências positivas ela acumula para construir a sua base.

Quais sinais de alerta no desenvolvimento infantil os pais e cuidadores devem observar nos primeiros anos de vida? Em que momento essas dificuldades justificam procurar uma avaliação profissional, mesmo sem um diagnóstico definido?

Nós temos um norte que seguimos. Com 12 meses (1 ano), a criança deve estar andando ou começando a andar, falando, ou começando a falar, respondendo a sinais sociais, como dar tchau, mandar beijo, bater palma, sorrir quando brincam com ela, olhar na direção de quem chama o seu nome, etc. É claro que – cada criança tem seu tempo – e você não precisa se desesperar caso seu filho não esteja fazendo alguma dessas coisas com um ano de idade. Mas essa frase foi muito negligenciada ao longo do tempo. O certo seria dizer que: cada criança tem seu tempo, DENTRO DE UMA JANELA DE OPORTUNIDADES DE DESENVOLVIMENTO.

Não é normal uma criança completar dois anos de idade e não estar andando ou utilizando uma fala funcional.
Hoje consideramos isso um atraso importante no desenvolvimento, mas quando eu comecei na carreira, no início dos anos 2000, muitas vezes esperávamos até os 4 anos para a criança começar a falar, para só então começar a investigar. Se a gente falasse em terapia, atraso ou avaliação antes disso, muitas vezes era considerado “terrorismo”. Hoje, felizmente, essa visão mudou. Ao menor sinal de que alguma coisa não está seguindo o esperado, já é indicado investigar.

Os principais sinais de alerta são atraso ou ausência da fala, pouco contato visual, não responder quando é chamado pelo nome, pouca interação com outras pessoas, dificuldade para apontar ou compartilhar interesses, não demonstrar interesse por brincadeiras sociais, movimentos repetitivos, interesses muito restritos, dificuldade importante para lidar com mudanças, choros sem explicação e perda de habilidades que a criança já havia adquirido.
Isso não significa que a criança tenha necessariamente algum transtorno. Significa que existe um atraso e que merece ser observado e, se necessário, investigado.

Aqui no Brasil, na caderneta de vacinação da criança, encontramos o M-CHAT, que é um questionário simples de rastreio para sinais de autismo. Ele observa, principalmente, aspectos como contato visual, comunicação, interação social, atenção compartilhada e comportamento.
Não serve para dar um diagnóstico. Serve para indicar se a criança apresenta sinais que merecem uma avaliação mais detalhada e, caso precise, os pais ou cuidadores devem procurar um neuropediatra.
Minha orientação é simples: não precisamos esperar um diagnóstico para começar a investigar. Se há um atraso, precisamos ficar alertas.

Muitas famílias percebem que “há algo diferente”, mas ainda não possuem um diagnóstico fechado de TEA. É indicado esperar a conclusão da investigação ou já iniciar algum tipo de estimulação? Por quê?

Hoje já sabemos que não devemos esperar o diagnóstico. Se existe um atraso ou algum sinal de que o desenvolvimento não está acontecendo como esperado, a criança já deve ser avaliada e, quando necessário, iniciar a intervenção
E existe uma razão muito simples para isso. Os primeiros anos de vida são o período de maior plasticidade neural. Gosto de falar que o cérebro da criança é como um HD vazio, ou uma esponja!  O cérebro está formando, fortalecendo e organizando muitas conexões, então ele está preparado para receber e processar muitas informações.
Existe também um processo natural chamado poda sináptica ou poda neuronal, em que algumas conexões são eliminadas e outras são fortalecidas de acordo com as experiências da criança. Então, quanto mais cedo identificamos uma dificuldade, mais cedo podemos oferecer experiências e estímulos adequados para o desenvolvimento.

⁠Existe uma ideia de que é preciso esperar um diagnóstico definitivo para iniciar as terapias. Esse pensamento pode atrasar o desenvolvimento da criança? Qual é a importância de começar a intervenção logo que surgem os primeiros sinais de atraso?

Acho que já respondi esta pergunta na resposta da anterior.
Sim. Este pensamento pode ser muito prejudicial para o desenvolvimento da criança. Esperar significa perder um tempo (janela de oportunidade) muito importante e que não volta mais.
Não significa que devemos sair fazendo terapias porque existe um atraso. Significa olhar para a necessidade daquela criança. Se ela tem atraso de fala, dificuldade na interação social, dificuldade motora, atenção muito comprometida ou qualquer outro atraso importante identificado, nós trabalhamos aquela dificuldade enquanto a investigação diagnóstica continua. Diagnóstico pode demorar, mas o desenvolvimento da criança não espera.

O que é a estimulação psicomotora e de que forma ela contribui para o desenvolvimento global de crianças com TEA ou com suspeita de atrasos no desenvolvimento?

A psicomotricidade parte da compreensão da criança como um ser global. O corpo em movimento, a cognição, a afetividade e a relação com o outro, consigo mesma e com o ambiente que a cerca, estão diretamente ligados. Na prática, nós auxiliamos os pequenos a utilizarem movimentos corporais intencionais como instrumentos para ajudar em seu desenvolvimento global.

No TEA a desestruturação motora é muito frequente. Estudos recentes mostram que aproximadamente 83% das crianças autistas apresentam algum tipo de atraso ou alteração motora. Podem existir dificuldades de tônus, coordenação, equilíbrio, planejamento motor, etc. e, além de aspectos motores, a psicomotricidade também atua de forma efetiva em aspectos cognitivos, comportamentais e socioemocionais. Então não estamos falando só do movimento em si, mas também de memória operacional, flexibilidade cognitiva, controle inibitório, atenção, percepção, planejamento, raciocínio, tomada de decisão, resolução de problemas, organização, monitoramento, autorregulação emocional, autoestima, interação, comunicação, independência e autonomia, aspectos que frequentemente apresentam comprometimento no TEA.

Existe uma relação entre o desenvolvimento motor e outras habilidades, como linguagem, atenção, aprendizagem, interação social e autorregulação emocional? Como esses aspectos se influenciam mutuamente?

Sim. E essa é justamente uma das bases da psicomotricidade. Trabalhar o corpo em movimento para favorecer o desenvolvimento global, e não trabalhar a motricidade como algo isolado.
O movimento é como a porta de entrada para novas experiências e são essas experiências que fazem com que as oportunidades de desenvolvimento aconteçam.
Ao se movimentar, explorar o ambiente e manipular objetos a criança precisa prestar atenção, perceber, planejar e resolver o que chamamos de situação problema. Para realizar um movimento com objetivo, ela também precisa planejar, inibir impulsos, usar a sua memória. Durante as brincadeiras, surgem mais oportunidades de comunicação e interação com o outro. Tudo está ligado o tempo todo.

Na sua prática clínica, quais são os principais benefícios observados quando a intervenção psicomotora acontece ainda entre o nascimento e os seis anos de idade?

Trabalhar com bebês e crianças exige muito estudo e dedicação. Então, conhecer os marcos motores, entender que o desenvolvimento acontece de forma céfalo-caudal e próximo-distal, compreender as fases motoras e os estágios do desenvolvimento motor e respeitar a progressão pedagógica, facilita esse processo e faz com que consigamos resultados mais consistentes e significativos. Quando sabemos o que esperar de cada fase, conseguimos oferecer o estímulo certo, na hora certa, sem atropelar o desenvolvimento da criança. E isso faz diferença não só na parte motora, mas também nas funções executivas, na interação, na autorregulação e autonomia dos pequenos.

Quais atividades simples os pais podem realizar em casa para estimular o desenvolvimento psicomotor de forma lúdica e segura, sem substituir o acompanhamento profissional?

Só brinquem. De tudo. Ensinem as brincadeiras que vocês brincavam quando eram crianças, mostrem as regras dos piques, brinquem de bonecos, carrinho, casinha, escola, façam cabanas, façam piquenique, tomem banho de mangueira e pulem nas poças d’água, corram descalços na grama, na areia, subam em árvores, cozinhem juntos… O importante é estar junto! Não precisa transformar a casa em uma sala de terapia ou ficar pensando em qual atividade vai estimular qual habilidade. Muitas vezes, estar disponível, brincar junto, conversar, esperar, observar, deixar que ela explore e compartilhar aquele momento é muito mais importante do que montar uma atividade perfeita. Até porque, não existe atividade perfeita.

Como deve acontecer a integração entre família, escola e profissionais para que a criança tenha um desenvolvimento mais completo e funcional?

Sem essa parceria, não adianta nada! Ela precisa acontecer de verdade e no dia a dia, não somente quando surge uma dificuldade. Família, escola e terapeutas precisam estar em contato sempre, porque cada um enxerga a criança de uma maneira diferente e essas informações se complementam. A família sabe como aquela criança funciona em casa, a escola acompanha sua participação e interação no ambiente coletivo, e os terapeutas contribuem com o conhecimento técnico. Quando todo mundo conversa, conseguimos traçar objetivos mais certeiros e pensar em estratégias que possam ser utilizadas em todos os contextos em que a criança está inserida.

 

Que mensagem você gostaria de deixar para as famílias que estão vivendo a incerteza da investigação diagnóstica e têm receio de iniciar uma intervenção antes da confirmação do TEA?

Não percam tempo! O tempo na infância é valioso e não volta. Quanto mais cedo identificamos uma dificuldade e oferecemos as oportunidades certas para aquela criança, maiores são as possibilidades de desenvolvimento. E começar uma intervenção não significa afirmar que a criança tem TEA; significa simplesmente não deixar o desenvolvimento da criança esperando por um diagnóstico que pode nem vir!

Por Vitor Aguiar (@prof.vitoraguiar)

Apresentará com Ana Rodrigues a palestra “Do zero aos cem anos: eixos importantes na construção e transmissão da afetividade” no Simpósio Afetividade e Psicomotricidade, que acontecerá no Rio de Janeiro nos dias 21 e 22 de agosto. 

https://wakeditora.com.br/produto/simposio-afetividade-e-psicomotricidade-presencial-rio-de-janeiro/

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