No palco da Jornada do Autismo 2026, Felipe Nilo — faixa-preta de jiu-jitsu, professor de artes marciais há mais de dez anos e ele próprio autista — trouxe um tema que ainda enfrenta resistência: a autodefesa estruturada para crianças e jovens no espectro. Com dados, relatos e demonstrações práticas, Felipe deixou uma mensagem direta: não podemos continuar ignorando a violência que nossas crianças sofrem.
“Nós precisamos abordar esse tema com urgência. Não podemos permitir que crianças e jovens autistas continuem sendo vítimas de violência.”
— Felipe Nilo, professor de artes marciais e palestrante na Jornada do Autismo 2026
Uma história pessoal de exclusão e transformação
Felipe começou sua fala de onde poucas pessoas começam: da própria dor. Na infância, era a criança destoante que não conseguia acompanhar o ritmo das brincadeiras na escola. No intervalo, enquanto todos jogavam bola, ele ficava de fora — não por falta de vontade, mas porque o professor de educação física o isolava. Ninguém passava a bola para ele.
Essa exclusão sistemática levou a um ciclo familiar para muitas famílias do espectro: o isolamento voluntário. Felipe passava as tardes trancado no quarto, em casa, porque ali pelo menos ninguém poderia machucá-lo. Mas esse isolamento trouxe consequências — comportamentos reativos, dificuldade de regular emoções, e uma sensação constante de não pertencer.
Foi quando conheceu as artes marciais que algo mudou. “Elas me trouxeram segurança, autonomia e a sensação de pertencimento que eu nunca havia sentido”, contou.
O que os dados dizem sobre bullying e autismo
A palestra não se sustentou apenas em vivências pessoais. Felipe trouxe números que merecem atenção:
- Mais de 67% das pessoas autistas sofrem alguma forma de bullying escolar.
- 16% sofrem bullying com frequência, de forma sistemática e continuada.
- Em um estudo com 621 adolescentes autistas, 32% relataram ideação suicida — e grande parte dessas ideações estava diretamente relacionada a experiências de violência no ambiente escolar.
Esses dados não são apenas estatísticas. São crianças reais. E o silêncio em torno do tema — seja por medo de “criar problemas na escola”, seja pelo receio de que falar em autodefesa signifique incentivar agressão — tem custado vidas.
Os sinais que estamos deixando passar
Um dos pontos mais importantes da palestra foi o alerta sobre os sinais de que uma criança está sofrendo violência. Muitas vezes, esses sinais são mal interpretados como mudanças de comportamento sem causa aparente, e a resposta dos adultos acaba sendo ajustar a medicação ou trocar a terapia.
Felipe listou alguns dos sinais mais comuns:
- Recusa em ir à escola em dias específicos da semana — geralmente os dias em que o agressor está presente ou em que a situação se repete.
- Queda no desempenho escolar sem explicação aparente.
- Redução da comunicação em criança que estava evoluindo nas terapias.
- Aumento da ansiedade, especialmente antes do horário escolar.
- Isolamento social progressivo e relutância em participar de atividades coletivas.
- Comportamentos de fuga — dores de barriga frequentes, “esquecimentos” de material escolar, pedidos para não entrar no ônibus.
- Consumo excessivo de telas ou outras formas de fuga como mecanismo de evitação emocional.
Importante: nem todo bullying deixa marcas visíveis. Existe o bullying velado — ameaças silenciosas, exclusão constante, humilhações disfarçadas de brincadeira — que não produz hematomas, mas produz trauma. E esse tipo é frequentemente ignorado.
Autodefesa não é agressividade — entendendo a diferença
Uma das preocupações mais frequentes de famílias e professores ao ouvir falar em artes marciais para autistas é: isso não vai gerar mais violência? Felipe respondeu com clareza a essa pergunta.
A diferença entre comportamento agressivo e comportamento de autodefesa é fundamental:
Comportamento agressivo
- Busca intimidar e ferir
- Não avalia consequências
- É desproporcional à ameaça
- Continua mesmo após a ameaça cessar
Comportamento de autodefesa
- Responde a uma ameaça real e proporcional
- Tem como único objetivo proteger-se
- Cessa assim que a ameaça é neutralizada
- Envolve consciência das consequências
“Nunca vou ver uma pessoa que realmente sabe autodefesa iniciando uma agressão”, afirmou Felipe. “O que eu ensino é que a defesa física é o último recurso — e ela só acontece quando não há outra saída.”
As fases do programa de autodefesa
Felipe apresentou as etapas do trabalho que desenvolve com crianças e jovens autistas, deixando claro que o programa vai muito além de técnicas físicas:
1. Postura e autoconfiança
Tudo começa na postura. Uma criança com postura confiante já modifica a percepção que o agressor tem dela. Isso inclui trabalhar a hipotonia — muito comum no espectro —, o contato visual funcional e a presença no ambiente.
2. Reconhecimento de ambiente e identificação de ameaças
Antes de qualquer técnica, é preciso saber ler o ambiente. Onde estão os adultos responsáveis? Quem representa uma ameaça potencial? Como me posicionar para ter mais segurança? Essa percepção ambiental é treinada gradualmente.
3. Ação passiva: verbalização e posicionamento
A primeira resposta a uma situação de ameaça é sempre verbal e posicional. O aluno aprende a dizer com clareza e firmeza: “Não faça isso comigo. Eu não gosto. Estou te avisando.” E aprende a registrar esse aviso — para que, se houver necessidade de defesa física, haja um histórico claro de tentativas de resolução pacífica.
4. Criação de distância
Estratégias para manter distância segura de potenciais agressores, incluindo como se deslocar no espaço físico sem ficar vulnerável.
5. Rompimento de contato físico
Técnicas para se soltar de agarramentos e criar distância segura — sem continuar no ambiente de risco.
6. Defesa física controlada
Apenas quando todas as etapas anteriores foram esgotadas. A resposta é proporcional, controlada e tem como objetivo único sair da situação com segurança.
Por que o profissional precisa entender o autismo
Felipe foi enfático em um ponto: não basta colocar uma criança autista em qualquer academia. O professor precisa compreender o funcionamento neurológico do autismo.
Ele relembrou um vídeo que recebeu logo no início do seu trabalho: um professor ensinando defesa pessoal para uma criança autista de forma completamente inadequada — sem adaptações sensoriais, sem compreensão das particularidades do processamento emocional e motor do aluno. “O profissional precisa entender como o autismo funciona. Sob pressão, o cérebro autista pode ter uma resposta diferente — o que exige simulações adaptadas, progressão cuidadosa e ambiente seguro.”
Além disso, o programa precisa trabalhar:
- Regulação emocional
- Tolerância ao contato físico (iniciando com contato casual e gradual)
- Compreensão das consequências das ações
- Coordenação motora e base corporal
A ação passiva e o registro das ocorrências
Um recado importante de Felipe foi sobre o que fazer diante da escola. Ele contou o caso do próprio filho: ao ser importunado repetidamente por um colega, o filho verbalizou claramente duas vezes que não gostava e que estava avisando. Na terceira vez, se defendeu fisicamente.
A escola suspendeu o filho. Felipe foi até lá com a narrativa completa: havia registros das duas advertências verbais anteriores. A situação foi resolvida — e a suspensão, retirada.
“Ensinar nossos filhos a verbalizar e a registrar não é só uma estratégia de autodefesa. É uma estratégia jurídica e de proteção dentro do sistema.”
O que as famílias podem fazer agora
Felipe encerrou com orientações práticas para pais e cuidadores:
- Observe os sinais de alteração de comportamento sem buscar explicação médica antes de investigar o ambiente escolar.
- Converse com a escola — não apenas para relatar, mas para exigir protocolos de proteção.
- Busque um profissional de artes marciais que conheça o autismo, não apenas um bom lutador.
- Trabalhe a autoconfiança e a autoestima do seu filho em paralelo às técnicas de proteção.
- Documente tudo: conversas, ocorrências, aviso verbal que seu filho deu. Isso tem valor jurídico.
Este conteúdo é de caráter educativo e foi produzido com base na palestra de Felipe Nilo no Congresso Jornada do Autismo 2026. Não substitui avaliação ou acompanhamento profissional especializado. Se você suspeita que seu filho está sofrendo bullying ou violência, procure apoio de profissionais de saúde mental e, se necessário, dos órgãos de proteção à criança e ao adolescente.


