ENTREVISTAS

Emilio Figueira

Jornalista, psicólogo, psicanalista e escritor. Autor dentre outros, dos livros “Intervenções Psicológicas em Pessoas Com Deficiência” e “As Pessoas Com Deficiência Na História Do Brasil”, ambos pela Wak Editora

“Inclua nossa voz!”: protagonismo, oportunidades e combate ao capacitismo

Essa entrevista nos convida a refletir sobre o protagonismo e a escuta ativa das pessoas com deficiência, o respeito à autonomia e às escolhas individuais, a importância de oportunidades reais de participação social e a necessidade de combater o capacitismo em suas diferentes formas.

O tema da Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla de 2026 afirma: “Deficiência não define. Oportunidade transforma. Inclua nossa voz!”. O que essa mensagem representa para você, considerando também sua trajetória pessoal e profissional?

Para mim, essa mensagem resume uma verdade que aprendi tanto na minha vida pessoal quanto na minha trajetória profissional. A deficiência não define quem uma pessoa é, nem o que ela pode realizar. O que realmente faz diferença são as oportunidades que ela recebe ao longo da vida. Quando existem acesso, educação de qualidade, trabalho, respeito e espaço para participar das decisões, as pessoas conseguem mostrar seu potencial.

Ao longo de muitos anos pesquisando, escrevendo e convivendo com pessoas com deficiência, percebi que a maior parte das dificuldades não está na deficiência em si, mas nas barreiras que a sociedade cria. Por isso, a frase “Inclua nossa voz!” é tão importante. Ela nos lembra que não basta falar sobre inclusão; é preciso ouvir as pessoas com deficiência, respeitar suas escolhas e garantir que elas participem das decisões que afetam suas vidas. A inclusão verdadeira acontece quando deixamos de enxergar a pessoa apenas pela deficiência e passamos a reconhecê-la como protagonista da própria história.

A expressão “Inclua nossa voz!” chama atenção para a necessidade de escutar as próprias pessoas com deficiência. Na prática, o que significa promover uma verdadeira escuta ativa, em vez de apenas falar sobre inclusão?

Promover uma verdadeira escuta ativa significa entender que a pessoa com deficiência não pode ser apenas consultada por educação ou para cumprir um protocolo. Ela precisa ser ouvida de verdade, e sua opinião deve influenciar as decisões que dizem respeito à sua vida. Infelizmente, ainda é comum que familiares, profissionais e instituições decidam o que é melhor sem perguntar o que a própria pessoa pensa, deseja ou espera. Isso pode acontecer até com boa intenção, mas continua sendo uma forma de retirar seu protagonismo.

Escutar de verdade também exige humildade. É preciso reconhecer que ninguém conhece melhor a realidade de uma pessoa do que ela mesma. O conhecimento técnico de profissionais e a experiência das famílias são importantes, mas não substituem a vivência de quem enfrenta diariamente as barreiras da sociedade. Em muitos casos, basta fazer uma pergunta simples: “O que você prefere?” ou “Como você gostaria que isso fosse feito?”. Essa mudança de atitude faz uma enorme diferença.

Também é importante lembrar que nem todas as pessoas se comunicam da mesma forma. Algumas utilizam recursos de comunicação alternativa, outras precisam de mais tempo para se expressar, e isso deve ser respeitado. Escuta ativa é criar condições para que cada pessoa possa se manifestar do seu jeito. Quando isso acontece, deixamos de falar apenas sobre inclusão e passamos a construir uma inclusão em que as pessoas com deficiência realmente participam, opinam e ajudam a definir os caminhos que dizem respeito às suas próprias vidas.

O lema “Nada sobre nós, sem nós” tornou-se uma importante expressão do movimento das pessoas com deficiência. Por que ainda é necessário reforçar que decisões sobre suas vidas não devem ser tomadas sem sua participação?

Embora o lema “Nada sobre nós, sem nós” exista há décadas, ele continua atual porque muitas decisões ainda são tomadas sem a participação efetiva das pessoas com deficiência. Isso acontece na criação de políticas públicas, em projetos educacionais e, muitas vezes, até dentro da própria família. Quando a pessoa não participa das decisões que dizem respeito à sua vida, perde autonomia e deixa de ser protagonista da própria história. Ouvir e envolver as pessoas com deficiência não é apenas uma questão de respeito, mas de justiça. Quem vive a deficiência conhece como ninguém os desafios, as barreiras e também as soluções que podem fazer a diferença. Por isso, nenhuma iniciativa voltada a esse público deveria ser construída sem a participação ativa de quem será diretamente beneficiado por ela.

Existe uma diferença entre oferecer ajuda e, mesmo com boa intenção, acabar retirando a autonomia da pessoa com deficiência. Como famílias, educadores e profissionais podem reconhecer esse limite e favorecer escolhas e independência?

Existe uma diferença muito grande entre apoiar e decidir pela pessoa. A ajuda é importante quando amplia a autonomia. Ela deixa de ser positiva quando passa a substituir a vontade da pessoa com deficiência. Muitas vezes isso acontece por excesso de proteção ou pelo desejo sincero de evitar dificuldades, mas o resultado pode ser o mesmo: a pessoa perde oportunidades de aprender, fazer escolhas e ganhar independência.

Famílias, educadores e profissionais podem evitar isso adotando uma postura simples: oferecer apoio sem retirar o direito de decidir. Sempre que possível, é importante perguntar, dar opções e respeitar as preferências da própria pessoa, mesmo quando ela faz escolhas diferentes das que os outros fariam. Também é preciso compreender que autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas ter o direito de participar das decisões sobre a própria vida, contando com os apoios necessários. Quando valorizamos essa participação, ajudamos a construir pessoas mais confiantes, independentes e protagonistas de sua própria história.

Sua trajetória reúne literatura, psicologia, psicanálise, jornalismo, pesquisa e educação. Em sua experiência, qual é o impacto das oportunidades na construção da autonomia e das possibilidades de vida de uma pessoa com deficiência?

Minha própria trajetória me ensinou que oportunidades transformam vidas. Tive a sorte de crescer em uma família que sempre acreditou na minha capacidade e me incentivou a conquistar autonomia. Meus pais não ignoravam minhas limitações, mas nunca permitiram que elas definissem quem eu era ou determinassem até onde eu poderia chegar. Eles me estimularam a estudar, assumir responsabilidades, tomar decisões e enfrentar desafios, mesmo quando isso parecia mais difícil. Esse apoio fez toda a diferença na pessoa que me tornei.

Ao longo da minha vida, pude perceber que autonomia não nasce apenas da força de vontade. Ela é construída quando alguém acredita em você e oferece oportunidades reais de desenvolvimento. Foi isso que me permitiu seguir diferentes caminhos, como a literatura, a psicologia, a psicanálise, o jornalismo, a pesquisa e a educação. Cada uma dessas experiências ampliou minha visão sobre a inclusão e reforçou uma convicção: quando a sociedade oferece oportunidades, as pessoas com deficiência deixam de ser vistas pelas limitações e passam a ser reconhecidas por suas capacidades, talentos e contribuições.

Por isso, acredito que a maior barreira não é a deficiência, mas a falta de oportunidades. Quando elas existem, a autonomia cresce, a autoestima se fortalece e as possibilidades de vida se multiplicam.

Educação e trabalho são fundamentais para a participação social. Quais barreiras ainda impedem que pessoas com deficiência tenham oportunidades reais nesses espaços, para além de simplesmente estarem presentes neles?

Acredito que avançamos muito nas últimas décadas. Hoje existe uma legislação mais consistente, a inclusão está mais presente no debate público e muitas escolas, universidades e empresas têm buscado criar ambientes mais acessíveis. Também vemos um número cada vez maior de pessoas com deficiência ocupando espaços que antes lhes eram negados. Esses avanços merecem ser reconhecidos.

Ao mesmo tempo, ainda há um longo caminho pela frente. Em muitos casos, a inclusão acontece apenas no papel. A pessoa está matriculada na escola ou contratada por uma empresa, mas não recebe as condições necessárias para aprender, crescer profissionalmente e participar plenamente. Além disso, o preconceito continua existindo, muitas vezes de forma sutil, por meio das baixas expectativas em relação ao potencial das pessoas com deficiência.

O grande desafio agora não é apenas garantir o acesso, mas assegurar permanência, desenvolvimento e oportunidades reais. Inclusão não significa apenas abrir a porta de entrada; significa criar condições para que cada pessoa possa mostrar suas competências, construir autonomia e ser reconhecida pelo seu talento. Quando isso acontece, todos ganham: a pessoa com deficiência, as instituições e a sociedade como um todo.

O capacitismo pode aparecer de formas explícitas, mas também em atitudes aparentemente positivas, como infantilização, superproteção ou tratar realizações comuns como extraordinárias apenas porque foram realizadas por uma pessoa com deficiência. Como identificar e combater essas formas mais sutis de preconceito?

Hoje, quando falamos em capacitismo, muitas pessoas pensam apenas em atitudes claramente preconceituosas. Mas ele também aparece de formas muito mais sutis e, justamente por isso, mais difíceis de perceber. A infantilização, a superproteção ou o excesso de elogios por realizações comuns podem parecer demonstrações de carinho ou incentivo, mas acabam reforçando a ideia de que a pessoa com deficiência é diferente ou menos capaz.

Combater esse tipo de capacitismo exige uma mudança de olhar. Em vez de enxergar a pessoa pela deficiência, precisamos enxergá-la como qualquer outra pessoa: alguém com qualidades, dificuldades, talentos e limitações. Isso significa tratar uma conquista como uma conquista, e não como um feito extraordinário apenas porque foi realizada por uma pessoa com deficiência. Da mesma forma, oferecer ajuda quando ela é solicitada, mas sem retirar sua autonomia ou fazer escolhas em seu lugar.

A inclusão acontece quando substituímos a piedade pelo respeito, a superproteção pela confiança e os rótulos pelo reconhecimento da individualidade. É assim que construímos relações mais naturais e uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

Quando falamos de crianças e adolescentes com deficiência, como podemos estimular o protagonismo desde cedo, permitindo que expressem preferências, façam escolhas e participem das decisões que dizem respeito à própria vida?

O protagonismo começa muito antes da vida adulta. Ele nasce nas pequenas escolhas do dia a dia: escolher a roupa que quer vestir, decidir uma brincadeira, expressar uma opinião, participar de uma conversa em família ou assumir responsabilidades de acordo com a idade e suas possibilidades. Quando a criança ou o adolescente é constantemente impedido de decidir porque alguém acredita que sabe o que é melhor para ele, perde oportunidades importantes de desenvolver autonomia, autoconfiança e senso de responsabilidade.

É claro que toda criança precisa de orientação, tenha ou não uma deficiência. A diferença está em não transformar a deficiência em motivo para controlar cada aspecto da sua vida. Famílias, educadores e profissionais devem incentivar a participação, ouvir suas preferências, respeitar seu tempo e oferecer os apoios necessários para que ela consiga se expressar e fazer escolhas. Isso vale também para crianças e adolescentes com deficiência intelectual ou com maiores necessidades de apoio, sempre utilizando formas de comunicação adequadas às suas capacidades.

Quando estimulamos esse protagonismo desde cedo, estamos preparando adultos mais seguros, mais independentes e mais conscientes de seus direitos. Afinal, ninguém aprende a tomar decisões de um dia para o outro. A autonomia é construída aos poucos, por meio de experiências, acertos, erros e da confiança que os adultos depositam na capacidade de cada criança de participar da construção da própria história.

Qual deve ser o papel das próprias pessoas com deficiência na construção de políticas, projetos educacionais, ações de acessibilidade e iniciativas de inclusão que são destinadas a elas?

As pessoas com deficiência devem ocupar um papel central na construção de políticas públicas, projetos educacionais, iniciativas de acessibilidade e todas as ações que lhes dizem respeito. Ninguém conhece melhor as barreiras do que quem convive com elas diariamente. Por isso, sua participação não deve ser simbólica ou apenas para validar decisões já tomadas, mas efetiva desde o planejamento até a avaliação dos resultados.

Ao mesmo tempo, também precisamos enfrentar um desafio que nem sempre recebe a devida atenção: o autocapacitismo. Depois de tantos anos ouvindo que não são capazes, que precisam sempre de alguém para decidir por elas ou que determinados espaços não lhes pertencem, algumas pessoas com deficiência acabam incorporando essa visão e passam a duvidar do próprio potencial. Isso pode levá-las a evitar desafios, abrir mão de oportunidades ou acreditar que sua opinião não tem importância.

Combater o autocapacitismo também faz parte da inclusão. É preciso incentivar as pessoas com deficiência a reconhecerem seu valor, ocuparem espaços de decisão e compreenderem que sua experiência tem muito a contribuir para a construção de uma sociedade mais acessível e justa. Afinal, inclusão não acontece apenas quando a sociedade abre espaço; ela também se fortalece quando as próprias pessoas com deficiência se reconhecem como protagonistas e agentes de transformação.

Que mensagem você gostaria de deixar para a sociedade durante a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla de 2026 sobre o que precisa mudar para que “Inclua nossa voz!” deixe de ser apenas um lema e se transforme em uma prática cotidiana?

Não precisássemos mais criar campanhas para lembrar que as pessoas com deficiência têm voz, direitos e potencial. Que isso fosse algo tão natural quanto reconhecer a dignidade de qualquer ser humano. Enquanto esse dia não chega, precisamos continuar derrubando barreiras, combatendo preconceitos e criando oportunidades reais para que todas as pessoas possam participar plenamente da vida em sociedade.

A inclusão não depende apenas de leis ou de boas intenções. Ela acontece nas pequenas atitudes do dia a dia: quando escutamos antes de decidir, quando respeitamos a autonomia, quando acreditamos na capacidade das pessoas e quando abrimos espaços para que elas sejam protagonistas de suas próprias histórias.

Se eu pudesse deixar uma mensagem, seria esta: não enxergue primeiro a deficiência; enxergue a pessoa. Descubra seus sonhos, seus talentos, suas ideias e sua capacidade de contribuir para o mundo. Quando fazemos isso, a inclusão deixa de ser um discurso e se torna uma prática. E uma sociedade que aprende a valorizar cada pessoa, em sua singularidade, torna-se mais humana, mais justa e melhor para todos.

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